Formato e direitos travam e-book


Carência tecnológica e dúvida sobre divisão de receitas impedem expansão

Editoras brasileiras recorrem a asiáticos para converter arquivos, enquanto mercado nacional se debate sobre modelo de negócios a adotar

A máquina-robô "Maria Bonita", que digitaliza livros e documentos raros da coleção de José Mindlin doada à Brasiliana da USP

Se livrarias virtuais brasileiras já têm milhares de livros eletrônicos à venda, por que tão poucos títulos são em português? Por que esse mercado, ascendente nos EUA, não deslanchou no Brasil? As perguntas, que circulam no meio editorial e entre leitores, não têm respostas prontas nem simples, mas por ora duas surgem como mais esclarecedoras.

Uma, inacreditável, é tecnológica: o país praticamente não tem mão de obra especializada para converter os livros para o formato escolhido até agora como padrão pelo mercado, o ePUB. A outra razão é empresarial: editoras, livrarias e autores não definiram um modelo de negócios, ou seja, não há consenso sobre o preço médio do livro, sobre a divisão de receitas entre as partes da cadeia produtiva e, o mais grave, a maioria das editoras terá de renegociar os contratos com os autores, já que os atuais não preveem direitos digitais.
No primeiro caso, chama a atenção a experiência da Zahar, pioneira na venda de e-books no país. A editora recorre a empresas na Índia e nas Filipinas, subcontratadas de firmas nos EUA, para transformar em ePUB os seus livros digitais.

Desenvolvido pelo IDPF [fórum internacional de publicações digitais] para ser o formato padrão do mercado, o ePUB é mais dinâmico que o popular PDF, pois o fluxo e o corpo do texto se adequam ao aparelho.

Após diagramar o livro, a Zahar envia o arquivo para a Ásia. Quando ele volta, em formato ePUB, “perde a formatação e às vezes o conteúdo”, conta a diretora Mariana Zahar. Dá-se então um contato tortuoso com indianos ou filipinos, para que o serviço seja corrigido. “Vira um caos, é uma novela”, queixa-se. A editora, por isso, estuda voltar ao PDF.

O tradicional formato é defendido também por Carlos Eduardo Ernanny, dono da Gato Sabido, primeira loja de e-books do país. “É muito bizarro, há quatro meses tenho dois desenvolvedores de sistema sêniores trabalhando na criação de um conversor de formatos, e estamos apanhando.” Ele afirma que insistirá, mas defende que “não se deve atrasar publicação de livro se só houver PDF, que é um formato gostoso de ser lido“.

Não adianta editoras quererem recuperar o passado inteiro. Ele está perdido“, diz Ernanny, outro a sofrer com os prestadores de serviço asiáticos. “É seríssimo. Os livros vêm sem cedilha nem hífen. Você também não entende o que eles falam, aquilo não é inglês.

Recém-chegada à venda de e-books [começou as vendas neste mês], a Livraria Cultura diz ter especialistas que já convertem os livros para ePUB. “É gente daqui e de outro mundo“, despista o dono da rede, Pedro Herz, questionado sobre onde contratou a mão de obra. A Cultura, apurou a Folha, já está convertendo sob encomenda para editoras. Mas Herz continua cético quanto a um crescimento veloz do livro digital. Em quase um mês, diz ter vendido apenas 134 e-books. “É muito pouco.

O livreiro é um dos que defendem que o maior nó do mercado é a rediscussão dos direitos autorais. “O medo está aí. Isso vai inundar o Judiciário.” Diretor da Singular, loja virtual do grupo Ediouro, Newton Neto concorda com Herz. Embora também seja cliente dos asiáticos para converter formatos, ele avalia que o debate sobre modelo de negócios e renegociação de direitos ainda está “muito aberto e confuso“.
Ainda incipiente na oferta de e-books, a Singular aposta também em outros canais, como a impressão sob demanda e a parceria com o Google na polêmica investida da multinacional para digitalizar todos os livros possíveis e negociar direitos só com quem buscá-los.

Outro entrave ao desenvolvimento do mercado no Brasil é o preço dos leitores eletrônicos. Todos são importados e custam em média US$ 250 [R$ 440], fora impostos, que podem dobrar o valor. A Gato Sabido vende seu Cool-er, inglês, ao preço final de R$ 750.

Folha de S.Paulo | Sábado, 24 de abril de 2010 | Fabio Victor

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Chargista Orlando Mattos ganha Página na web


O chargista Orlando Mattos, colaborador da Folha entre os anos 1950 e 1970 e morto em 1992, ganha página na web e lançamento de edição digital de livro dedicado à sua obra. No site www.cidadespaulistas.com.br/divulgacao/orlando-mattos estão fotos, charges, cronologia do artista e depoimentos. A iniciativa é parceria da Opy Comunicação com a Prefeitura de Diadema e o portal Cidades Paulistas.

Folha de S.Paulo | Sábado, 24 de abril de 2010

Brasiliana e Biblioteca Nacional mostram avanço de acervos públicos


A “Maria Bonita” é mais alta que uma mulher grande e bem mais larga que uma mulher gorda. Tem um tubo de vento para separar as páginas dos livros e um braço de sucção para pegar uma folha por vez. Lá em cima, como olhos de caranguejo, duas câmeras digitais fotografam as páginas, que depois são tratadas e convertidas em formato digital antes de ir para a internet.

Ela é o robô da biblioteca Brasiliana Digital da USP, projeto que começa a levar ao público o acervo de livros e documentos raros doados à universidade pelo bibliófilo José Mindlin, morto em fevereiro.

Embora funcione em caráter experimental [a versão 2.0, operacional, está prevista para outubro], a página [www.brasiliana.usp.br] já reúne as primeiras centenas de pérolas da coleção de Mindlin, de 17 mil títulos. Estão lá, com páginas nítidas e textos de apresentações de especialistas, primeiras edições de Machado de Assis e José de Alencar, periódicos, dicionários, relatos de viagem e clássicos como a “História Geral do Brazil” de Varnhagen.

Enquanto o mercado ainda patina para vender livros digitais, a Brasiliana é um dos exemplos de como os acervos públicos estão mais adiantados em trazer à luz, e gratuitamente, obras neste formato.
O diretor da Brasiliana, Pedro Puntoni, coordena uma equipe de 15 bolsistas da Fapesp, a fundação de amparo à pesquisa do Estado de SP, que em 2008 injetou R$ 980 mil no projeto [o robô custou US$ 220 mil, R$ 378 mil em valor atual].

Trabalha em conjunto com a equipe da curadora da coleção de Mindlin, Cristina Antunes. A “Maria Bonita”, assim batizada porque os primeiros servidores da Brasiliana ganharam nome de cangaceiros, fica na casa onde vivia o bibliófilo.

A princípio, a digitalização começaria pelo acervo do IEB, Instituto de Estudos Brasileiros da USP, que integra o projeto. Mas, segundo Puntoni e Antunes, o IEB desistiu da parceria. AFolha tentou falar com a diretora do instituto, Ana Lucia Lanna, mas não houve resposta ao pedido de entrevista.

Exemplo mais desenvolvido é o da Biblioteca Nacional Digital [bndigital.bn.br], da fundação homônima do governo federal, criada em 2006 e que, segundo a coordenadora Angela Bettencourt, já tem 30 mil itens digitalizados (dos 9,5 milhões da biblioteca). Na internet pode-se consultar raridades como a coleção fotográfica do imperador D. Pedro 2º e documentos sobre a escravidão e a Guerra do Paraguai.

Folha de S.Paulo | Sábado, 24 de abril de 2010 | Fabio Victor

Obra poética de Vinicius será aberta


A partir da próxima segunda-feira, a obra poética de Vinicius de Moraes estará aberta ao público na biblioteca Brasiliana Digital USP.

A publicação foi autorizada pela VM Empreendimentos Artísticos e Culturais, que detém os direitos sobre a obra.

Trata-se de um caso raro de autor famoso a ter seu trabalho liberado para publicação mesmo ainda protegido pela lei de direito autoral -a obra dele só entrará em domínio público em 2040.

Integram o projeto “Toda poesia de Vinícius de Moraes” 15 livros digitalizados do escritor, entre eles primeiras edições raras do acervo doado por José Mindlin à USP, e um texto de apresentação de Marcelo Sandmann.
A obra digitalizada vai ser lançada na segunda-feira, em São Paulo, durante a abertura do Simpósio Internacional de Políticas Públicas para Acervos Digitais, promovido por Ministério da Cultura, Casa da Cultura Digital e Brasiliana USP.

Das 11h às 14h, um ônibus modelo 1928, inspirado na Biblioteca Circulante de Mário de Andrade, ficará estacionado em frente ao Novotel Jaraguá, local do evento [r. Martins Fontes, 71, centro], aberto ao público, com cinco leitores eletrônicos com as obras digitalizadas e som ambiente de Vinicius declamando poemas.
A programação do simpósio está detalhada na página www.acervosdigitais.blog.br, que traz também links para acessar acervos públicos digitais no Brasil e no exterior.

Folha de S.Paulo | Sábado, 24 de abril de 2010 | Fabio Victor

E eu com isso?


Os brasileiros que possuem leitores eletrônicos de livros têm de saber inglês -ou ler pouco. A Livraria Cultura oferece 120 mil e-books, mas menos de 50 nacionais. A Gato Sabido tem 115 mil títulos em inglês e mil em português. O preço, de 20% a 30% menor que o do livro de papel, está além do que o leitor está disposto a pagar, segundo pesquisa recente. Na Cultura, “Leite Derramado” [Cia. das Letras], de Chico Buarque, sai por R$ 39 em papel e por R$ 29 em e-book.

Folha de S.Paulo | Sábado, 24 de abril de 2010

Sebos modernos


O domínio da internet e a chegada de e-readers ao mercado podem ter sido vistos inicialmente como uma pedra no sapato dos amantes dos livros de papel. No entanto, segundo os livreiros e proprietários de sebos de Niterói, isso é página virada. Eles garantem que é possível viver em harmonia com a modernidade. Prova disso é a margem de vendas de livros antigos via web. Esse número, em alguns casos, representa mais da metade do total. Segundo Cristiano Cardoso, proprietário do sebo Universo do Livro, no Centro, as vendas pela web chegam a 60% do total da empresa. A multiplicidade já está inserida em todo o contexto de venda de livros. Há sites especializados nesse tipo de comercialização e que fazem muito sucesso, como a Estante Virtual, Sebo Online e A Traça. Paulista e radicado há dez anos na cidade, Paulo Toledo resolveu, há apenas oito meses, abrir a Livraria Econômica, em Icaraí, após ver que sua loja de produtos odontológicos já não estava dando certo. “Estou estupefato com a evolução do negócio” Toledo deposita grande parte dessa esperança na internet, responsável por 80% das vendas em sua loja.

Érika dos Anjos | O Globo | 24/04/2010

Ex-executivo da Apple cria enciclopédia colaborativa para fotos


Tela do Fotopedia, enciclopédia colaborativa de fotografia fundada por ex-funcionário da Apple; lema é "imagens para humanidade

Depois de viajar pelo mundo, quis compartilhar minhas fotos com outros. O Flickr e demais sites de fotografia dão a você uma exposição por apenas um breve período de tempo, e adicionar fotos à Wikipédia se mostrou muito complicado para o usuário comum“, escreve Jean-Marie Hullot, um dos fundadores do site e ex-executivo da Apple e da NeXT –ambas as empresas foram fundadas por Steve Jobs.

O objetivo de Hullot foi criar uma “Wikipédia para fotos”, que combinasse “a permanência e a colaboração da comunidade da Wikipédia com a facilidade de uso de softwares para computadores“.

Atualmente, o acervo da Fotopedia é de quase 500 mil imagens e mais de 30 mil artigos de enciclopédia.

As fotografias são divididas em categorias como cidades, flores, museus, pontes e montanhas.

Imagens para a humanidade” é o lema da Fotopedia [www.fotopedia.com], que se intitula a primeira enciclopédia de fotografias colaborativa.

Folha Online – Informática | da Reportagem Local de RAFAEL CAPANEMA | 24/04/2010 – 10h35