O livro impresso e suas encarnações pré-virtuais


Roney Cytrynowicz questiona na coluna desta semana se estamos ampliando as possibilidades e formas de leitura ou tornando-as mais pobres e limitadas?

A velocidade e o impacto dos avanços tecnológicos do livro virtual são um convite redobrado a uma reflexão, diante de certo deslumbramento com as novas tecnologias. Entre as várias possibilidades, duas são particularmente relevantes a partir da leitura de Línguas e leituras no mundo digital, do historiador Roger Chartier, escrito em 2002, que permanece atual e sugestivo [o artigo está em Os desafios da escrita, Editora Unesp].

Na cultura impressa, escreveu Chartier, o reconhecimento do gênero ou registro de um texto [jornal, revista, livro, carta, diário manuscrito] está ligado à sua “materialidade” como objeto. Cada uma das diversas “encarnações” do texto tem uma história de como se definiu em seus códigos de reconhecimento, com camadas de continuidades e variações. É uma cultura impressa para a qual o conteúdo não é intangível, mas diretamente ligado à sua presença física, um conjunto de gêneros de textos e livros com inúmeras variáveis e distinções.

O texto digital, no computador e nos e-books, rompe as distinções, anula os códigos e representações materiais do texto, formatando-os em um único padrão, lidos em um mesmo gênero de suporte e sem qualquer referência à sua materialidade [anterior]. Não pressupõe, assim, a cultura digital a idéia de que existe uma essência de texto que apenas se materializa em diferentes suportes, separando o gênero de conteúdo de sua forma e história, como se o texto [virtual] fosse mera emanação de um “além”?

Outra questão diz respeito ao tipo de leitura que o texto digital propicia. Será que existe uma leitura que independe do suporte, da materialidade que associa o texto à sua forma como objeto? O texto digital é “mole”, maleável, se desmancha e esparrama em sua imaterialidade e, por isso, escreve Chartier, a exemplo da navegação na internet, sua leitura é “descontínua, segmentada, fragmentada”. Se é útil em obras enciclopédicas ou de referência, torna-se “desorientada ou inadequada” diante de textos que pressuporiam conhecer e compreender o texto como parte de uma obra única, original e coerente.

Antes de anunciar o fim da cultura impressa, cabe fazer perguntas como: estamos ampliando as possibilidades e formas de leitura ou, ao contrário, tornando-as mais pobres e limitadas? Passado o período de deslumbramento, talvez seja o caso de discutir seriamente estes temas. Mesmo que estejamos apenas no início de uma nova cultura, a virtual.

Publicado originalmente em PublishNews | 09/04/2010

Roney Cytrynowicz, A coluna “Volta ao mundo em 80 livros”, publicada quinzenalmente – sempre às sextas-feiras, vai contar histórias em torno de livros, leituras, bibliotecas, editoras, gráficas e livrarias e narrar episódios sobre como autores e leitores se relacionam com o mundo dos livros.

Apple lançará iPad menor e mais barato, diz site


Apenas alguns dias após o início das vendas do iPad, o computador portátil com tela sensível ao toque da Apple, já surgem novos boatos de que o aparelho terá uma nova versão em tamanho menor.

Segundo o site Digitimes, o novo iPad terá entre 5 e 7 polegadas de tela e será lançado no começo de 2011.

Ainda de acordo com detalhes publicados pelo Digitimes, o pequeno iPad custará menos de US$ 400 e será mostrado como um aparelho para usuários que são focados na leitura de conteúdo e não precisam escrever muitos textos.

iPad
O iPad foi lançado após uma séries de rumores e a Apple já comemorou 300 mil unidades vendidas, no penúltimo sábado, dia de seu lançamento. Apesar do sucesso, a empresa já confirmou que o dispositivo apresenta problemas com a conexão Wi-Fi. O iPad terá uma versão também com 3G, que só começará a ser vendida no final deste mês, vinculada aos pacotes da empresa AT&T. Por ora, todos os consumidores que comprarem o computador têm acesso apenas à conexão Wi-Fi.

Folha de S.Paulo | 09/04/2010