A era dos livros eletrônicos


Pergunte a C. T. Liu sobre as futuras fontes de crescimento de sua empresa, a fabricante de LCD AU Optronics, e ele mostrará seu leitor de livros digitais Kindle, como resposta. A forte recepção ao Kindle, concebido pelo grupo de varejo eletrônico Amazon.com, está atraindo crescente número de programadores interessados em explorar o interesse em aparelhos que permitem que os usuários leiam jornais, revistas e livros em formato digital. A Sony entrou para o movimento da leitura sem papel com leitores eletrônicos próprios, e formou parceria com o Google para oferecer livros que estão em domínio público e não mais contam com a proteção de direitos autorais. Outros dos interessados nesse primeiro estágio da era sem papel incluem a Netronix, de Taiwan, que está produzindo modelos semelhantes dotados de telas sensíveis a toques, e a holandesa Polymer Vision, que deve em breve lançar um leitor eletrônico portátil com tela que pode ser enrolada. “Nós consideramos que esse seja um novo setor“, disse Liu, vice-presidente sênior da AU, a terceira maior fabricante mundial de telas de cristal líquido [LCD].

Reuters | 01/04/2009 | Por Baker Li

O futuro do livro


Em uma sequência de “Cleópatra”, o filme de 1963, a soberana egípcia interpretada por Elizabeth Taylor invade a sala onde está Júlio César e desafia, aos gritos, o ditador romano. “Como você ousa destruir a minha biblioteca?“, pergunta a rainha, enquanto vê arder, a distância, a Biblioteca de Alexandria. Hollywood não costuma ser muito fiel à história e a cena não foge à regra. Para muitos historiadores, a versão segundo a qual Júlio César incendiou acidentalmente a mais famosa biblioteca da Antiguidade não passa de mito. A eficácia da cena, porém, é inquestionável. Sem muitos rodeios, egípcios e romanos são postos em campos opostos. Os primeiros, sugere o roteiro, formam uma civilização antiga, guardiã da sabedoria da época, embora politicamente instável. Já os romanos são os senhores do mundo – detêm o poder político e militar -, mas não passam de brutos.

Milênios depois, parece que a biblioteca está pegando fogo novamente. Claro, em sentido figurado. Editoras, livrarias e autores – os principais elos da cadeia editorial – estão preocupados com o avanço de companhias de tecnologia como Apple, Amazon e Sony, ávidas em lucrar com seus leitores eletrônicos de livros. Para os pessimistas, essas empresas seriam os novos bárbaros, capazes de colocar abaixo o edifício ao minar as bases que há muito tempo sustentam negócio. Os mais otimistas veem exagero nisso tudo, mas concordam que os atores tradicionais do setor terão de mudar seu script para não sair de cena. Nos dois lados, prevalece a dúvida: afinal, qual será o futuro do livro?

Vai haver uma coexistência. [O meio digital] é uma evolução natural do livro. Os consumidores dos livros físicos e dos digitais continuarão existindo porque são tipos de leitura diferentes“, diz Eduardo Mendes, diretor-executivo da Câmara Brasileira do Livro [CBL]. “O público é que vai definir com que intensidade consumirá um tipo ou outro.” O tema ganhou tanta importância que o órgão organizou nesta semana, em São Paulo, o I Congresso Internacional do Livro Digital.

Não é de hoje que os livros em papel têm sido desafiados. Nos últimos tempos surgiram, por exemplo, os “audiobooks” – textos gravados em CD ou arquivos digitais, prontos para ser ouvidos no carro ou no tocador de MP3 – e a impressão sob demanda, que permite publicar um único exemplar, se o autor desejar. Mas nos dois casos as novidades foram consideradas uma extensão do mercado principal, voltadas para um público específico e, portanto, sem força suficiente para alterar as regras de negócio vigentes.

Com os leitores digitais, a história é diferente. No ano passado, enquanto a indústria do livro nos Estados Unidos apresentou aumento de 4,1%, os e-books deram salto de 176,6%, com vendas de US$ 169,5 milhões no período. De uma participação insignificante, de 0,05% em 2002, os livros eletrônicos passaram a responder por 3,31% do mercado de livros nos EUA em 2009, segundo dados da Association of American Publishers [AAP]. Com incentivos como o iPad, da Apple, que chega às lojas americanas neste sábado, e a adesão crescente das editoras ao formato, há previsões de que os e-books possam chegar a 10% do mercado neste ano.

Trata-se, portanto, de um mercado de massa e, como tal, capaz de desequilibrar as forças no setor. A questão principal é quem define o preço do livro digital. Editoras e livrarias querem evitar o que ocorreu na indústria fonográfica. Na música, empresas de tecnologia passaram a fixar o valor das faixas – no caso da Apple, quase todas vendidas a US$ 0,99 -, tirando esse poder das mãos das gravadoras.

Esse ponto tem arrastado as negociações das editoras brasileiras com uma principais novas forças do setor: a Amazon. Segundo um editor, que prefere não se identificar, os termos propostos pela maior livraria on-line do mundo incluiria uma divisão de receita draconiana: a Amazon ficaria com 65% do valor da venda, deixando às editoras 35%.

O valor unitário proposto pela Amazon, considerado baixo, seria outro ponto de discórdia. Nos EUA, a companhia definiu como preço único ao consumidor o valor de US$ 9,90. Dependendo do caso, ela paga à editora um valor maior, arcando com a diferença. Esse seria o modelo proposto no Brasil. “A Amazon tem musculatura para vender com prejuízo para ganhar mercado. O problema é que futuramente ela pode determinar, por exemplo, que US$ 9,90 é o valor a ser pago a todas as editoras por obra, não deixando que o preço seja definido pelo varejo“, diz Sônia Machado Jardim, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros [Snel].

A Panda Books não foi abordada pela Amazon, mas procurou conhecer as condições oferecidas. “Achamos o contrato selvagem, tanto na divisão de receita como na tentativa de fixar os preços“, afirma Marcelo Coelho, fundador da editora. O empresário, que pediu para não ser identificado, também se mostrou reticente. “Eu nem pensaria em negociar agora. Não acho que seja o momento.” O ideal, diz ele, seria algo parecido com o que a Apple vem oferecendo nos EUA, com 70% para a editora. Procurada pelo Valor, a Amazon não retornou os pedidos de entrevista.

Apesar da resistência, algumas editoras brasileiras já fecharam com a Amazon. A GS&MD oferece cinco livros digitais na loja on-line desde janeiro e pretende oferecer mais seis para o Kindle, o leitor eletrônico da Amazon, ainda este ano. Preço não foi o principal fator considerado para fechar a parceria. “Acredito que ainda haverá muita evolução nesse mercado, mas entendemos que era preciso experimentar, começar a trilhar esse caminho“, diz Renato Muller, gerente de publicações da editora.

A Ediouro associou-se à Amazon em outubro, ao mesmo tempo em que fechou com a Sony e a Apple. Dona de um catálogo de 10 mil títulos, a empresa pretende fazer 100 lançamentos pela Amazon até o fim do mês. A expectativa é de chegar ao fim do ano com 3 mil obras em versões digitais compatíveis com o Kindle, o Sony Reader e o iPhone, da Apple. No caso da Amazon, as negociações foram facilitadas pelo fato de a Ediouro manter uma joint venture com a editora americana Thomas Nelson, pela qual já vendia livros físicos na loja on-line. “A Amazon trabalha com um modelo rígido de negócios, mas como já trabalhávamos com ela, a negociação dos e-books foi tranquila“, afirma Newton Neto, diretor-executivo da Singular, braço digital da Ediouro.

Mas quem acha que o futuro do livro aponta de maneira inexorável para uma terra de gigantes, precisa conhecer Carlos Eduardo Ernanny. Há um ano, ele fundou a livraria on-line Gato Sabido. Hoje com mil clientes, o site oferece 100 mil títulos em inglês, mas apenas 850 em português, desequilíbrio que Ernanny planeja corrigir. “As editoras [brasileiras] estão na velocidade de uma tartaruga. Estão demorando para aderir a essa nova forma de vender livros, enquanto nos Estados Unidos esse mercado não para de crescer.

Ernanny trabalhou por alguns anos no mercado financeiro, mas decidiu procurar algo mais desafiador. Passou a acompanhar a trajetória das livrarias on-line no exterior e logo percebeu que, no Brasil, seria necessário oferecer um leitor eletrônico mais barato. Viajou para conhecer fabricantes diferentes e encontrou o fornecedor ideal na Inglaterra. Agora, a Gato Sabido oferece um equipamento a R$ 750. A Academia Brasileira de Letras, diz Ernanny, está testando o produto.

Os livros vendidos pela Gato Sabido também estão disponíveis para outros sistemas, além do leitor eletrônico da editora. Ernanny já fechou parcerias com as editoras Zahar e Lumen Jurism, esta última especializada em livros jurídicos. A Globo Livros, que está em negociações com a Amazon, também já acertou um acordo com a Gato Sabido e iniciou conversações com as livrarias Cultura e Saraiva. A primeira lançou um serviço para vender livros digitais nesta semana e a segunda pretende fazer o mesmo neste mês. “A meta é fazer todas as parcerias possíveis para que os livros esteja disponíveis em todos os formatos, independentemente do dispositivo que o consumidor vier a escolher“, afirma Mauro Palermo, diretor da Globo Livros.

Apesar dos desafios, a esperança das editoras e livrarias é de que o e-book ajude a resolver o que é visto como o principal problema do mercado editorial brasileiro: o pequeno número de leitores. Segundo a Câmara Brasileira do Livro, eles seriam 95 milhões, uma conta na qual entram pessoas que leram pelo menos um livro nos últimos três meses. A limitação, diz Mendes, da CBL, é cultural e não financeira. Um levantamento feito com os chamados não leitores mostra que apenas 7% deles disseram não ler por falta de dinheiro.”O livro digital vai, sim, ajudar a criar um novo tipo de leitor”, diz Hubert Alquéres, diretor-presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. “Achava-se que o DVD mataria o cinema, mas um potencializou o outro”, compara o executivo. A aposta é de que, com novos recursos, como vídeo e música, o público mais jovem, acostumado à internet e aos videoclipes, poderá aproximar-se mais facilmente da literatura. A Imprensa Oficial já pôs na internet todos os 200 títulos de sua coleção de biografias Aplauso, com 50 mil downloads registrados.

O impacto mais forte, porém, é esperado no campo dos livros didáticos. É nesse segmento, diz Alquéres, que os recursos de interatividade, como a possibilidade de consultar mapas e fazer pesquisas on-line, vai mudar mais rapidamente o mercado. É um ponto com o qual muitos editores concordam. Pudera. Imagine abrir seu livro de história e encontrar, no capítulo sobre o Egito, um vídeo iluminado pelos olhos violeta de Liz Taylor.

João Luiz Rosa, Heloísa Magalhães e Cibelle Bouças – Valor – 01/04/2010

Admirável Livro Novo


Quem compraria de olhos fechados um produto que ninguém experimentou, que ainda não tem certeza de como funciona e que nem sabe exatamente para que vai servir? A partir deste mês, milhares de pessoas [por ora apenas nos Estados Unidos] terão a oportunidade de ver como é realmente o iPad, o mítico e-reader da Apple, aquele que pode fazer com o livro em papel o mesmo que o iPod fez com o CD: torná-lo dispensável. Seriam esses computadores pessoais em formato de prancheta e tela sensível ao toque, chamados tablets, “assassinos tecnológicos”, capazes de transformar o livro impresso em objeto de museu, ao lado dos daguerreótipos, dos gramofones e até dos primeiros leitores digitais, como o Kindle?

Como em todas as discussões milenaristas, os debatedores podem ser divididos em duas correntes: os “apocalípticos” e os “integrados”, para usar os termos do filósofo italiano Umberto Eco – que é, aliás, uma voz importante também nessa questão. Na obra Não Contem Com o Fim dos Livros, que sai no fim do mês no Brasil, ele e o escritor francês Jean-Claude Carrière procuram tranquilizar, numa série de conversas, os que temem que a era tecnológica se transforme num apocalipse que não deixará página sobre página. Ao mesmo tempo, é um exemplo de como a discussão sobre o fim do livro é inútil, porque na maior parte do tempo é baseada em achismos e experiências pessoais que não são necessariamente compartilhadas pelas novas gerações. Mesmo quando o debate é liderado por pensadores de renome.

Quem lê o livro percebe que a confiança expressa na capa não reflete o conteúdo. O que sobressai é o lamento de dois homens brilhantes que, como muitos de seus contemporâneos, se veem como dinossauros soterrados por uma revolução nas formas de escrever, ler e transmitir o conhecimento. Carrière fica surpreso, por exemplo, quando o amigo Eco revela ser um velho jogador de fliperama [!] atordoado por uma “derrota acachapante” de 280 a 10 para o neto de 7 anos num videogame. O placar leva o autor de O Nome da Rosa a reconhecer que, por mais que tenha devorado bibliotecas, é incapaz de acompanhar a revolução que se anuncia. “Nossa insolente longevidade não deve nos mascarar o fato de que o mundo do conhecimento está em revolução permanente e de que não fomos capazes de captar plenamente alguma coisa senão no lapso de um tempo necessariamente limitado.

Apesar de inflamar corações e mentes, a discussão sobre o fim do livro é apenas a ponta do iceberg de outra revolução em curso: a das novas possibilidades de narrar e ler abertas pelas tecnologias digitais. Essas inovações convergem de tal forma que, no futuro, as experiências de ler, ouvir e ver não serão mais distintas. Uma nova semântica já começa a se instaurar a partir da internet. Os próprios conceitos de livro e literatura já não parecem mais tão claros diante das novas mídias.

A QUARTA TELA
A revolução que torna incerto o futuro do livro questiona a noção de autoria, abala as bases da indústria editorial e muda as formas de leitura já é chamada pelos especialistas de Quarta Tela – as três primeiras são a da televisão, a do computador pessoal e a do telefone celular. A quarta tela com que vamos nos acostumar a interagir diariamente será a do tablet. O iPad é a estrela desta nova geração de computadores, mas nem de longe a única. Calcula-se que ele dividirá o mercado com pelo menos 50 modelos nos próximos meses.

A Hewlett-Packard, por exemplo, promete para breve o Slate, que usará o Windows como sistema operacional. A Samsung também anunciou o seu E6, um e-reader que permite anotações a mão, e a Asus inova com um e-reader com duas telas, simulando a leitura de um livro. Até o Brasil entrou na corrida. De Recife, a Mix Tecnologia anunciou o lançamento para junho do primeiro leitor eletrônico com software 100% nacional, a um preço que varia entre R$ 650 e R$ 1,1 mil. O investimento parece alto, mas milhares de e-books são oferecidos pelas livrarias virtuais gratuitamente, como os clássicos em domínio público. E o download de um lançamento custa em geral metade do preço de um livro em papel.

Tablets têm uma série de vantagens sobre os dispositivos que apenas exibem textos digitalizados, como os pioneiros Kindle, da livraria Amazon, e o nook, da livraria Barnes & Noble, além de sua tela colorida. “Ele abre uma nova gama de experiências que ultrapassa a da leitura do livro impresso”, afirma o brasileiro Julius Wiedemann, editor-chefe da área de design da Taschen, que já testa um programa para simular livros de arte no novo e-reader, com direito a multimídia e interatividade. “Vivemos uma mudança radical de paradigma”, acredita. Opinião parecida tem o editor da revista americana Wired, Chris Anderson. “Daqui a 10 anos vamos ver que este foi um momento significativo”, afirmou numa conferência em São Francisco em março, quando apresentou um vídeo com a versão da revista, uma espécie de bíblia das novas tecnologias, para o iPad.

A verdade é que, até o mês passado, e-readers eram suportes eletrônicos para livros comuns, e os e-books não passavam de versões digitalizadas de textos produzidos para serem impressos. Mas, de agora em diante, o livro — assim como os jornais e revistas — pretende ser muito mais do que um texto adaptado para o novo formato. Nascidos digitais, os novos livros podem prescindir da leitura linear, integrar-se à internet, misturar palavra, vídeo, foto, som e animação, e literalmente explodir em 3D nas telas. Neste novo universo, real e virtual não são mais mundos separados. Os novos livros poderão ainda ser reescritos por seus leitores, em experiências interativas e colaborativas que colocam em questão o conceito de autoria e propriedade intelectual.

O CHEIRINHO DO LIVRO
Ainda é cedo para medir o impacto na criação narrativa dessa literatura sem papel. O livro eletrônico poderia desenvolver novas formas expressivas — assim como o livro impresso possibilitou o boom do romance, e a câmera filmadora a explosão do cinema? Boa parte das obras produzidas no novo formato ainda é experimental. No entanto, as editoras comerciais já começam a fazer suas próprias experiências. A Penguin e a Macmillan colocaram na rede vídeos mostrando como seus livros serão reinventados, ganhando recursos interativos e multimídia, espaço para comentários, mecanismos de busca e comunidades virtuais de leitores para trocar ideias.

Segundo o executivo-chefe da Penguin, John Makinson, a editora criará grande parte de seu conteúdo digital em HTML [linguagem para escrever páginas da internet] em vez do formato ePub, usado nos livros eletrônicos. “A própria definição de livro está aberta”, acredita. De fato, há dúvidas sobre como classificar as obras produzidas a partir das estratégias narrativas abertas pelas novas tecnologias. Seriam livros ou alguma forma nova, que já é chamada de transmídia, que conviverá em separado com o mercado editorial tradicional, como a televisão adquiriu uma linguagem diferente do cinema?

Apesar de toda essa excitação, não faltam leitores que não pretendem abandonar o papel por nada. Seus argumentos são pertinentes. Ler num computador não é tão confortável como ler uma obra impressa [por outro lado, uma biblioteca inteira cabe num levíssimo e-reader]. É difícil ler na tela porque os olhos se cansam da luminosidade [aparentemente não os das novas gerações, habituadas às telas do computador]. As baterias acabam, enquanto livros duram quase uma eternidade [em compensação os livros impressos não podem ser baixados para o seu e-book quando se está há horas esperando na antessala do médico]. Para praticamente todo argumento contra um tipo de livro há um a favor.

Resta o insubstituível “cheirinho do livro”. Para quem não abre mão dele, uma história divertida é a relatada pelo historiador americano Robert Darnton em A Questão dos Livros: Passado, Presente e Futuro, que sai no Brasil em maio. Conta que uma pesquisa com estudantes constatou que 43% deles consideravam o cheiro uma das maiores qualidades dos livros. E a única que aparentemente não poderia ser suplantada pelos livros eletrônicos. Mas uma editora online, a CaféScribe, já apareceu com uma solução: oferecer um adesivo para ser colado em seus computadores com um aroma similar.

Especialista na história do livro, Darnton mostra que o livro impresso é também uma tecnologia de leitura, que já desbancou outras, no passado: os rolos de pergaminho e as obras manuscritas, mesmo que sob severos protestos de seus defensores. Nesta área, as mudanças têm sido cada vez mais rápidas. “Da descoberta da escrita até o codex [o formato atual do livro], passaram-se 4.000 anos; do codex à tipografia, 1.150 anos; da tipografia para a internet, 524 anos; da internet para os mecanismos de busca, 17 anos; deles para o Google, 7 anos; e quem sabe o que estará ali na esquina ou vindo na próxima onda?”, pergunta.

Com ou sem cheirinho, os e-readers prometem revolucionar os hábitos de leitura, assim como o codex fez com os rolos de papiro. Em vez de duas páginas lado a lado, teremos uma única, que também servirá para exibir vídeos, acessar a internet e nos comunicar com os amigos. Podemos retomar o hábito de fazer anotações nas margens, sublinhar e usar etiquetas virtuais [tags] para catalogar o que nos interessa. Em vez de comprar livros, poderemos baixá-los numa livraria virtual imediatamente — e talvez impulsivamente, porque o preço será bem menor. Será muito simples buscar palavras-chave num grande volume de textos e assim destrinchar em poucos minutos a obra de um grande pensador sobre determinado assunto. Ou mesmo de vários pensadores ao mesmo tempo. Vamos poupar muitas árvores de serem abatidas à toa, para a publicação de livros sem importância. Mas qual será o custo disso para o universo da leitura tal como conhecemos hoje?

O tempo dirá quem vai pagar a conta.

CROWDSOURCING
Elaboração dos mais diversos conteúdos de maneira coletiva. O desenvolvimento de ferramentas interativas e o sucesso do twitter deu novo fôlego às experiências colaborativas em rede na área acadêmica e literária.

APLICAÇÕES
A enciclopédia virtual Wikipédia é um exemplo de narrativa colaborativa: em vez de especialistas contratados, quem escreve os verbetes são os leitores. Na wikiliteratura, eles também são convidados a contribuir para o desenvolvimento da história.

TÍTULOS
De olho no fenômeno, a editora americana Penguin criou o projeto A Million Penguins, que chamou de exercício de escrita criativa colaborativa com base no twitter. Nela, todas as contribuições podem ser editadas, alteradas ou removidas pelos colegas. E a BBC Audiobooks convidou o escritor Neil Gaiman para dar o pontapé inicial de um conto com uma frase de 140 caracteres, complementado depois pelos seguidores cadastrados.

INTERATIVIDADE
Total. A própria ideia de autoria se desfaz nestes projetos baseados no conceito de inteligência coletiva.
VEJA: http://www.amillionpenguins.com

FICÇÃO HIPERTEXTUAL
Também chamada de ficção não-linear, permite que o texto tome vários caminhos e até ter vários finais possíveis. Não nasceu na internet, mas ganhou impulso nela pela facilidade de criar hiperlinks, que possibilitam navegar pela história.

APLICAÇÃO
Tem grande aplicação na literatura, adequada para a criação de nova narrativas não-lineares, ou na adaptação de já existentes, como O Jogo da Amarelinha, de Júlio Cortázar.

TÍTULOS
Alguns dos mais interessantes exemplos podem ser consultados na Biblioteca Cervantes Virtual, sob a rubrica hipernovela. Vale conferir títulos como Condições Extremas, de Juan B. Gutierrez.

INTERATIVIDADE
Pode ser de dois tipos: explorativa e construtiva. Na primeira, o autor define os rumos da história, mas permite ao leitor decidir seu trajeto de leitura. Na segunda, o leitor pode inclusive modificar a história.
VEJA aqui.

HIPERMÍDIA
Narrativa que faz uso de texto, áudio, animações e vídeo para contar uma história ou desenvolver uma tese. A hipermídia não é a mera reunião da várias mídias, mas sim a fusão delas numa nova narrativa.

APLICAÇÃO
Permite que várias mídias sejam integradas e formem uma nova linguagem, com sua própria gramática. Já imaginou um livro como A Volta ao Mundo em 80 dias usando o Google Maps? É útil também em ensaios – um livro sobre a ópera, por exemplo, pode trazer imagem e áudio das encenações.

TÍTULOS
O premiado Alice Inanimada, produzida por Kate Pullinger e Chris Joseph, é um romance que utiliza uma combinação das várias mídias. Durante dez episódios vemos a menina sair de uma região remota da China para se tornar uma designer de jogos.

INTERATIVIDADE
Nem sempre é necessária. O leitor pode simplesmente acompanhar a história da forma como ela é narrada. Ou eventualmente jogar com ela.
VEJA: http://www.inanimatealice.com/

FAN FICTION
Obra de ficção criada por fãs com base em personagens de livros, filmes, mangás e animações consagradas. Sem se importar com direitos autorais, os fãs podem também tomar emprestadas situações das histórias originais.

APLICAÇÃO
Criado para diversão, o gênero também tem um potencial didático que já foi descoberto por professores de português. Em sala de aula, pode-se criar fan fictions de obras clássicas – inventado mais peripécias, por exemplo, para Leonardo Pataca, protagonista de Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida.

TÍTULOS
Embora os primeiros blogs sejam dedicados a aventuras inspiradas pela série Harry Potter, de J. K. Rowling, há histórias baseadas em Senhor dos Anéis, de J. K. Tolkien, e em Eragon, de Christian Paolini, entre outros.

INTERATIVIDADE
Em sites, blogs, fóruns e redes de e-mail, um “autor” pode controlar um personagem, discutindo com os amigos os rumos da história.
VEJA: http://fanfiction.nyah.com.br/

GAMES
Modelo narrativo não-linear, que leva o leitor a “jogar” uma história, em vez de acompanhar passivamente a trama arquitetada por um autor.

APLICAÇÃO
Atraente especialmente para o público juvenil, acostumado a interagir com videogames. Os educadores já estão de olho no potencial do formato para atualizar os livros didáticos. Já pensou estudar Geografia procurando um tesouro nos Andes?

TÍTULOS
Em 2008, a editora americana Scholastic publicou o primeiro livro da série The 39 Clues – lançado no Brasil pela Ática. Escrito por Rick Riordan, autor de Percy Jackson & Os Olimpianos, o livro entrou imediatamente nas listas de mais vendidos nos Estados Unidos.

INTERATIVIDADE
No caso de The 39 Clues, um website, figurinhas colecionáveis, quebra-cabeças, jogos on-line ajudam o leitor-jogador a seguir as pistas que revelam o passado da família Cahill e de personagens históricos, como Benjamin Franklin e Anastasia Romanov.
VEJA: http://www.the39clues.com

REALIDADE AUMENTADA
Marcada com um código especial, uma página de livro exibe objetos tridimensionais na tela do computador quando colocada em frente à webcam. São imagens, sons e textos que acrescentam informações ao conteúdo impresso, numa mistura de mundo virtual e real.

APLICAÇÃO
Útil para livros infantis e enciclopédias, que poderiam trazer mapas, gráficos e objetos animados e em 3D.

TÍTULOS
As crianças que foram à Feira de Frankfurt em 2008 puderam se deliciar com as experiências da Metaio, uma empresa alta tecnologia alemã que apresentou os livros Aliens & UFOs. Este ano, as inglesas Salariya Book Company e Carlton lançaram títulos como O que Lola Quer… Lola Tem e Dinossauros Vivos!

INTERATIVIDADE
O que diferencia essa tecnologia dos pop-ups tradicionais [livros de papel em que as ilustrações são montadas em 3D] é que os objetos em 3D se mexem e acompanham o leitor, seguindo seus movimentos.
VEJA: http://www.metaio.com

VOOK
Um livro em que a informação do texto é complementada com vídeo – algo parecido com o jornal Profeta Diário dos filmes de Harry Potter, em que as reportagens trazem, em vez de foto, personagens em movimento.

APLICAÇÃO
Útil para livros de receitas culinárias ou de ginástica, em que o leitor poderá ver os movimentos necessários em vídeo. Em ficção, contudo, seu uso é polêmico, por tirar do leitor o prazer de imaginar rostos e cenários.

TÍTULOS
Disponíveis hoje para iPhone e tablets – não para Kindle. Em ficção, Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, e A Estranha História do dr. Jekyll e mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson. Há ainda obras exclusivas para o formato, como Promessas, de Jude Deverauz.

INTERATIVIDADE
O leitor pode se conectar com o autor, acessar links úteis e comentar a história com seus amigos ou outros leitores nas redes sociais, como o Twitter e o Facebook.
VEJA: http://www.vook.com

Cristiane Costa – Sean Mackaoui – Revista BRAVO – Abril 2010

Editoras apostam seu futuro em iPad que ainda não viram


Editoras de jornais e revistas estão apostando no iPad da Apple para dar o arranque em uma forma de transição comercialmente viável para a digitalização de suas publicações –apesar de apenas uns poucos executivos terem chegado a colocar as mãos no aparelho, a poucos dias de o produto chegar às prateleiras.

Inclusive, muitos grupos de comunicação provavelmente não anunciarão aplicativos próprios para o iPad enquanto o tablet não chegar às lojas nos Estados Unidos, o que deve ocorrer neste sábado [3], devido a várias restrições de acesso ao aparelho impostas pela Apple sobre seus parceiros.

Embora o conteúdo seja essencial para o sucesso do iPad – um computador tablet de 9,7 polegadas, que mais parece um iPhone gigante que busca integrar o nicho do mercado entre um smartphone e um notebook–, a Apple tem guardado seus planos a sete chaves.

Executivos do setor afirmam ter testado o aparelho ou na sede da Apple, na Califórnia, ou em outro local, mas apenas sob medidas de segurança extremamente restritivas.

Nos ofereceram a oportunidade de ter um iPad no prédio, mas as implicações à segurança eram tantas que simplesmente não valia a pena“, disse o dono de uma editora que pediu para não ser identificado.

Apenas alguns felizardos receberam pessoalmente o presidente-executivo da Apple, Steve Jobs, que esteve em Nova York no começo do ano para promover o iPad para grupos como o “Wall Street Journal” e o “New York Times”.

Tela colorida

Apesar das restrições, a tela colorida sensível a toque do iPad é considerada seu grande diferencial para atrair grupos de comunicação, que há tempos lutam para ganhar dinheiro com conteúdo digital, ao qual a maioria dos consumidores esperam ter acesso gratuitamente, ou, no mínimo, a um preço muito baixo.

Agora, as editoras veem no aparelho uma nova chance para acertar um modelo de negócios eletrônico -além de ganhar maior poder para negociar licenciamento, caso o iPad surja como um rival à altura do Kindle, da Amazon.com.

Todos nós sofremos nessa indústria para encontrar um modelo on-line bem-sucedido em termos de conteúdo e da inclinação do consumidor em pagar por ele“, disse recentemente o presidente-executivo da Penguin Books, John Makinson.

“Pessoalmente, acho que o iPad representa uma primeira oportunidade real de criar um modelo de conteúdo pago que será atraente para o consumidor. E acho que a psicologia do conteúdo pago no tablet é diferente da psicologia do conteúdo pago em computadores pessoais.”

Um total de 30% da receita da Penguin com vendas de livros digitais para o iPad ficará com a Apple, o que, para Makinson, é melhor que os atuais 50% normalmente cobrados por livrarias e varejistas, incluindo a Amazon.com.

YINKA ADEGOKE e GEORGINA PRODHAN | da Reuters, em Nova York | 01/04/2010 – 10h33

Brasileiros ainda desconhecem livro digital


Os leitores brasileiros ainda não sabem da existência do livro digital e também não sabem como ter acesso a eles. Esse traço do comportamento dos 95 milhões de leitores brasileiros inclui até mesmo os mais jovens, que também o associam muito à internet. Os dados constam da pesquisa Os Leitores Brasileiros e o Livro Digital, realizada pelo Observatório do Livro e da Leitura para a Câmara Brasileira do Livro [CBL] e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, e divulgada no Congresso Internacional do Livro Digital. Foram realizados oito grupos de discussão em São Paulo, Rio, Porto Alegre e Recife no início do mês.

Ficha técnica:

•  Área de Atuação: Livro
•  Tipo de Produção: Pesquisa
•  Âmbito: Nacional
•  Data de Produção: 31/03/2010
•  Idioma: Português
•  Cidade: São Paulo
•  Estado: São Paulo
•  País: Brasil

Com a palavra, sua excelência o leitor!


O leitor brasileiro faz bico para o livro digital que ele conhece – aquele que baixa na internet, tenta ler na tela do computador e acaba imprindo para ler no papel. Mas muda tudo quando lhe apresentam um desses e-readers que já circulam por aí. O aparelho leitor, embora considere ainda incipiente, faz, por ora, a cabeça desses leitores. O grande dilema: ninguém quer pagar pelo conteúdo do livro digital. Esse é um dos resultados da pesquisa Os Leitores Brasileiros e o Livro Digital, que o Observatório do Livro e da Leitura fez  para a Câmara Brasileira do Livro e a Imprensa Oficial de SP. Baixe aqui a apresentação dos resultados.

Revista do Observatório do Livro e da Leitura – Edição 142 – De 01 a 08/04/2010 | http://www.observatoriodolivro.org.br

Livros escolares, uma atenção toda especial


Responsáveis por um terço da receita do mercado editorial brasileiro e por metade dos livros vendidos a cada ano no País, as editoras de livros escolares têm acompanhado com especial interesse a discussão sobre o futuro do livro digital. Vários estados americanos já decretaram o fim dos seus programas de aquisição de livros de papel. No lugar, só conteúdo digital e gratuito. Por lá, a questão afetiva não pesou. Foi uma decisão puramente monetária, para enfrentar o desastre da crise econômica.

Revista do Observatório do Livro e da Leitura – Edição 142 – De 01 a 08/04/2010 | http://www.observatoriodolivro.org.br

Livro digital, demanda nova no Parlamento


A julgar pelo que tem acontecido pelo mundo afora, Câmara Federal, Senado e Assembleias Legislativas terão muito que debater, estudar e aprovar na forma de leis em torno do livro digital, políticas de educação e programas de livros nos próximos anos por aqui. Tanto é que a Câmara dos Deputados deve realizar em junho, antes de parar para o recesso e as eleições de outubro, um seminário só para debater o tema. Quem articula tudo é a Frente Parlamentar de Incentivo à Leitura, liderada pelo deputado paranaense Marcelo de Almeida [PMDB].

Revista do Observatório do Livro e da Leitura – Edição 142 – De 01 a 08/04/2010| http://www.observatoriodolivro.org.br

Ser ou não ser digital, eis a questão!


Só se falou numa coisa na semana que passou no mundo do livro no Brasil: o livro digital! As mesas de debates e os corredores do Congresso Internacional do Livro Digital, encerrado nesta quarta [31/3], em São Paulo, foram palcos da mais densa e instigante confabulação a respeito já ocorrida no País. Não se sabe exatamente para onde ir. Mas uma coisa é certa: não dá pra ficar de fora! Assista à entrevista ao vivo que Galeno deu  sobre o assunto  na TV Brasil.

Revista do Observatório do Livro e da Leitura – Edição 142 – De 01 a 08/04/2010| http://www.observatoriodolivro.org.br

Universitários dos EUA terão iPad de graça


Ontem, universidades americanas anunciarem que seus estudantes ganharão um iPad para acompanhar as aulas. A Universidade Seton Hill, em Pittsburgh, no estado da Pensilvânia, informou que vai distribuir iPads para os estudantes em período integral. Ela estima que esse número chegue a 1.500. Segundo representantes da universidade, o iPad permitirá baixar e consultar textos para as aulas e facilitará a troca de textos entre alunos e professores. Já a Universidade George Fox, no estado do Oregon, informou que os calouros [o ano letivo começa em agosto] poderão escolher entre um iPad e um MacBook. Blogs especializados, no entanto, ressaltam que essas iniciativas têm algo de golpe publicitário.

O Globo | 01/04/2010

O futuro do livro


Mercado editorial está preocupado com o avanço de empresas de tecnologia como Apple, Amazon e Sony

Editoras, livrarias e autores – os principais elos da cadeia editorial – estão preocupados com o avanço de companhias de tecnologia como Apple, Amazon e Sony, ávidas em lucrar com seus leitores eletrônicos de livros. Para os pessimistas, essas empresas seriam os novos bárbaros, capazes de colocar abaixo o edifício ao minar as bases que há muito tempo sustentam negócio. Os mais otimistas veem exagero nisso tudo, mas concordam que os atores tradicionais do setor terão de mudar seu script para não sair de cena. Nos dois lados, prevalece a dúvida: afinal, qual será o futuro do livro? “Vai haver uma coexistência. [O meio digital] é uma evolução natural do livro. Os consumidores dos livros físicos e dos digitais continuarão existindo porque são tipos de leitura diferentes“, diz Eduardo Mendes, diretor-executivo da Câmara Brasileira do Livro [CBL]. O tema ganhou tanta importância que o órgão organizou nesta semana, em São Paulo, o I Congresso Internacional do Livro Digital.

Valor Econômico | 01/04/2010 | João Luiz Rosa, Heloísa Magalhães e Cibelle Bouças

A eBookstore da Livraria Cultura já está funcionando


Confira na matéria do Jornal do Commércio os detalhes da operação

O Jornal do Commercio, do Recife, contou em sua edição de ontem sobre o início da operação da eBookstore da Livraria Cultura. Para ler o texto completa, acesse o site do jornal. A seguir, publicamos um trecho da matéria feita por Jessica Souza: A Livraria Cultura estreia hoje a venda de livros digitais pela internet. São mais de 120 mil títulos importados e cerca de 500 nacionais, compatíveis com diversos leitores digitais. Seguindo o mercado norte-americano, as publicações brasileiras estão em média 20% mais baratas em relação aos livros de papel. “Antes de comprar o livro, o internauta poderá ver, no próprio site da Cultura, uma lista com cerca de 20 readers compatíveis com a tecnologia que utilizamos”, explica o coordenador do departamento de e-books da livraria, Mauro Widman. Os leitores encontrarão compatibilidade com readers da Sony e Nook, por exemplo. No entanto, o Kindle, o leitor mais famoso do mundo, não é compatível com os livros da Cultura. Infelizmente, os usuários de iPhone, Blackberry, iPad, Windows Mobile e iPod Touch deverão esperar um pouco para ler os livros digitais. O Digital Rights Management [DRM], tecnologia utilizada pela Cultura para proteção contra cópias criada pela Adobe, ainda não é compatível com esses gadgets. Para os que usam sistemas compatíveis com a tecnologia, o processo de compra é bem simples e conta com serviços de apoio que instruem os consumidores a acessar as obras com DRM. “O internauta faz uma compra normal no site. No final do processo, ele recebe um e-mail com o link. Basta clicar e baixar o livro”, diz.

PublishNews | 01/04/2010

Livros digitais gratuitos fazem mesmo sucesso


Em 2009, a Imprensa Oficial abriu todo o conteúdo da Coleção Aplauso para leitura e download gratuitos e os resultados são expressivos

A prova de que o internauta espera da internet conteúdo gratuito é dada pela Imprensa Oficial que registrou, entre dezembro de 2009 até este mês, perto de 50 mil downloads de livros no site criado por ela especialmente para a sua coleção de biografias, roteiros e peças. Todo o acervo da Coleção Aplauso – são mais de 200 títulos – está disponível para leitura ou download. Tudo de graça. De lá para cá, o site foi visitado por 45 mil pessoas e 2,1 milhões de páginas foram visualizadas. Os campeões de procura são os roteiros de O ano em que meus pais saíram de férias, Cidade dos Homens, A Cartomante, O bandido da luz vermelha, Batismo de sangue, O contador de histórias, Quanto vale ou é por quilo, e ainda A hora do cinema digital e Tônia Carrero – Movida pela paixão. Vale lembrar que publicação de roteiros não é valorizada pelo mercado editorial brasileiro. Quem quiser guardar o livro na estante, ainda pode comprá-lo por R$ 15 [pocket] e R$ 30 [especial]. Na Bienal os descontos são sempre convidativos.

PublishNews – 01/04/2010 – Redação

Entrevistados torcem o nariz, mas depois gostam do leitor


Pesquisa qualitativa mostra que o leitor brasileiro já ouviu falar em livro digital e é simpático ao leitor, mas não gosta de ler no computador

Ao serem apresentados a um e-reader, jovens e adultos ouvidos na pesquisa qualitativa “Os leitores brasileiros e o livro digital” torceram o nariz num primeiro momento, mas depois já estavam dizendo que se ganhassem na Mega-Sena a primeira coisa que comprariam seria um daqueles. Isso porque não fazem ideia do valor do e-reader. Paulistas, por exemplo, chutaram que os aparelhos valem entre R$ 3 e R$ 5 mil, mas disseram que não pagariam mais do que R$ 1.500. O Cool-er, na Gato Sabido, custa R$ 750. A maioria dos entrevistados disse, entretanto, que para ele ser disseminado não deveria ultrapassar os R$ 300.

Nenhum dos participantes [divididos em oito grupos de oito a dez pessoas em cada um] tinha visto um leitor na frente e, curiosamente, passaram o dedo na tela esperando que algo acontecesse. Dos oito grupos, dois já tinham experimentado o livro digital no computador. Apesar da boa receptividade do e-reader, afirmaram que não pretendem aderir à tecnologia agora principalmente porque sabem que logo aquele modelo será superado.

Os entrevistados disseram também que o preço será aceitável se ficar em 25% do valor de capa de um livro impresso. Mas um deles disse que só se for de graça, usará. Caso contrário, “a editora que busque mais atrativos para me convencer.” A pesquisa foi idealizada pela Câmara Brasileira do Livro e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, realizada pelo Observatório do Livro e da Leitura em quatro capitais [São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre]e apresentada ontem no 1º Congresso Internacional do Livro Digital por Galeno Amorim, diretor do Observatório do Livro e da Leitura, e Maurício Garcia, diretor do Centro de Estudos e Pesquisas do Observatório do Livro e da Leitura.

O levantamento constatou que o livro impresso tem um valor muito grande para a sociedade brasileira. Para os entrevistados, ele representa o saber, o conhecimento. Um passeio por uma livraria ainda é melhor do que a leitura de um capítulo do Google. Por sua vez, o livro digital é visto como mais ecológico, mais barato ou até mesmo gratuito. É considerado também como um produto simples, com boa luminosidade, boa capacidade de armazenamento, prático e leve. No entando, querem mais do que um PDF ali dentro.

De acordo com Maurício Garcia, o conceito do livro digital está claro na mente dos entrevistados e é sempre associado ao computador e à internet. A rejeição inicial acontece pela dificuldade de ler na tela, porque o manuseio é difícil [não se leva um computador à cama] e também pela afeição que sentem pelo livro impresso. O fato de não poderem fazer anotações nele e o conflito com outras ferramentas de comunicação – MSN, Facebook, Orkut, Skype – também são obstáculos para uma leitura concentrada.

Eles não se sentem incomodados por baixar músicas de forma ilegal na internet, mas não vêem com bons olhos a pirataria de livros. Chegam a sentir até certa culpa pelo destino que o livro impresso pode ter.

A pesquisa mostrou, ainda, que o leitor brasileiro não tem pressa porque viveu uma situação semelhante com os telefones celulares e sabe que as primeiras gerações de novos produtos são mais caras.

Para a tradicional pergunta “o livro de papel irá acabar”, as respostas garantem que tão cedo isso não acontecerá. Os mais apegados ao suporte papel têm a certeza que o livro impresso nunca acabará. Outros acreditam que é uma questão de tempo, décadas ou mesmo anos. Por enquanto os brasileiros preferem os livros impressos e a tendência é uma convivência pacífica com a chegada dos e-readers.

De acordo com Galeno Amorim, o Brasil já publicou 32 milhões de livros. Destes, apenas 10% está disponível. São 95 milhões de leitores no País e outros 77 milhões que não lêem. Em 2008, 4,6 milhões de brasileiros assumiram que lêem livros digitais [entendidos aqui como leitura no computador] e 7 milhões baixam livros gratuitamente pela internet.

Ouça mais constantemente o seu consumidor, reflita sempre sobre os novos modelos de negócios, amplie a interação e a comunicação com seus consumidores e interprete as pistas dadas pela pesquisa”, sugere Galeno.

PublishNews – 01/04/2010 – Maria Fernanda Rodrigues

Apesar das incertezas, é hora de começar


Congresso do Livro Digital termina com dúvidas e expectativas quando ao próximo passo. Mas a lição é: ele tem que ser dado logo

Ontem, no dia dedicado às ideias brasileiras sobre o assunto mais comentado do momento no mercado editorial internacional, dúvidas, repetições, insegurança e uma revelação tímida. Da plateia do 1º Congresso Internacional do Livro Digital, veio a informação de que o Submarino corre para não ficar atrás das livrarias Cultura, Saraiva, Gato Sabido e Singular na venda de e-book. Marcílio Pousada, presidente da Saraiva, disse que esse é o momento de colocar a mão no bolso para fazer o negócio acontecer. Jorge Carneiro, diretor do Grupo Ediouro, comentou que existe uma tendência de esperar definições nos Estados Unidos. “Se pudermos ir começando e adotando um modelo que preserva o valor do livro, é melhor ir começando”.

Silvio Meira, do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife, insistiu no que já havia sido dito: a tecnologia não precisa estar pronta para começarmos a usá-la. E fez uma previsão: “O modelo de livro do futuro vem do Facebook, do Google e dessas redes- e não através do pessoal que está digitalizando livro. Trata-se do modelo de formação de comunidades e não mais de disseminação de informação”.

Sérgio Valente, da DM9DDB, deu a deixa… Se existem 162 milhões de celulares no Brasil, por que as editoras não criam um livro para esse formato e enviam, por SMS, uma página por dia? “Duvido que o povo não vá ler”.

Confira os destaques das palestras

Logo pela manhã, dúvidas e mais dúvidas. O economista Claudio Moura de Castro se pergunta: “Quem vai preparar o novo livro? Quem vai pagar pelo esforço de preparação do novo livro? Quem faz o livro vai aprender a fazer balangandam ou quem faz balangandam vai aprender a fazer livro?” Para ele, há uma forte competição entre as “software houses” e as editoras. “No mundo real, editoras sabem fazer texto e não sabem fazer mais nada”, disse ainda.

A crise veio e está obrigando um reposicionamento do meio editorial. O livro não irá acabar, especialmente porque expressa uma parte admirável da cultura humana. Nos livros, se incorporaram todos os saberes da modernidade e da antiguidade”, acredita Aníbal Bragança, coordenador do Núcleo de Pesquisas sobre Livro e História Editorial do Brasil, da Universidade Federal Fluminense. Para ele, o impresso não será mais o centro da galáxia, mas as pessoas que sentem prazer em tocar e cheirar o livro darão permanência a ele.

O americano radicado no Brasil desde 1971 e professor da ECA-USP, Fredric Michael Lito, ressalta que não é nada novo o surgimento de tecnologias nos últimos anos. “Tivemos a música em fitas, fita cassete de vídeos, discos de vinil, câmeras Polaroid. Tudo foi criado e foi embora”. Ele é coordenador da Escola do Futuro, um laboratório de pesquisa que investiga as novas tecnologias de comunicação em aplicações educacionais, e presidente da Associação Brasileira de Ensino à Distância. De acordo com ele, ainda é difícil prever qual será o uso dessa nova tecnologia. E lembra uma declaração de Graham Bell logo após inventar o telefone, quando pensava ter criado o rádio. “Esse aparelho vai ser ótimo: depois do jantar de família, o pai pode ligá-lo para toda a família ouvir um concerto musical”.

Futurologia e mercado consumidor

O publicitário Sérvio Valente disse que não era astrólogo ou tarólogo e por isso não sabe aonde isso tudo vai dar. Mas explicou que conhece um pouco o perfil do consumidor brasileiro e isso também devia importar aos editores. “Vocês são tão vendedores quanto os das Casas Bahia”. Ele mostrou, por exemplo, que há 110 mil lan houses no Brasil. “Computador é coisa de pobre e as lan houses são as praças das famílias”. Geralmente estão instaladas ao lado de salões de beleza “porque a pessoa nunca vai deixar de fazer a sua chapinha e checar o e-mail e os recados no Orkut”. Esse é um dos fatos que mostram a maior conectividade das pessoas. “Paradoxamente está nascendo uma geração de leitores e escritores. Não tenham medo do computador; abracem-se a ele”, sugeriu.

Ele considera papel e tinta como meio e o conhecimento, fim. “Como ele vai chegar, não importa”. Para ele, a hora é de experimentar. Se há tantos celulares no Brasil – são 162 milhões, por que não lançar um livro que vai sendo enviado diariamente por SMS, página por página, questiona. “Vocês são livreiros, são conhecimenteiros e entretenimenteiros. Redefinam seus papéis e usem a mídia a seu favor. “Se não der certo, qual é o problema em desistir daquela tecnologia?” Por fim, brincou: “Não fiquem com síndrome de Highlander [There will be only one]!” Tecnomaníaco, disse: “Tenho o Kindle e já enchi o saco dele porque ele é chato pra caramba. Meu iPad chega na semana que vem”.

Edições inesgotáveis

Guy Gerlach, presidente da Pearson Education do Brasil, considera que a dificuldade de acesso não pode ser desculpa para entrar na ilegalidade. Ele comentou sobre Biblioteca Virtual da Pearson, lançada em 2005, que permite leitura na tela sem precisar fazer download de arquivo, impressão avulsa, pesquisa, anotações de estudo e mais. De acordo com ele, o ponto de partida é o conteúdo digital e esse mesmo conteúdo vai servir para vários usos.

O poder da pessoa física no que diz respeito à produção e criação é crescente e o modo de receber conteúdo, diferente. “Precisamos produzir o que o consumidor está pedindo, não o conceito do marketing de um mercado consumidor”. Ele entende que pela primeira vez a pirataria de livros – fotocópias – está ameaçada. “Temos outras formas de entregar esse pedaço de conteúdo ao estudante, que pagará através de micropagamentos”. Para ele, uma das vantagens da digitalizalção de livros de referência é que a edição se tornará inesgotável. E finalizou: “O livro digital no Brasil é ameaça e oportunidade e só depende de como vamos encará-lo”.

Tomando as rédeas

O diretor-presidente da Livraria Saraiva, Marcílio Saraiva contou sobre a história da rede que tem hoje 3 mil funcionários e comentou sobre a nova operação de venda de livros digitais, assunto da entrevista concedida ao PublishNews na última terça-feira e destaque no site e na newsletter de ontem. Ele mostrou três grandes momentos para a empresa: 1996, com a abertura da primeira megastore no Brasil; 1998, lançamento da Saraiva.com; e 2008, com a compra da Siciliano, “a nossa concorrente de vida inteira”. À época da inauguração da loja virtual, os acionistas chegaram a se preocupar com uma futura ameaça que a ponto com representaria às lojas físicas.

Com esse novo projeto da loja de e-books, “estamos olhando para daqui a 10, 15 anos”. Segundo ele, o momento é de investimento e os descontos oferecidos às editoras para os livros impressos devem ser preservados neste novo negócio.

“Apostamos que o livro impresso não morre. Uma parte dos clientes vai comprar o conteúdo digital, mas não sabem quando”, diz. Marcílio não acredita em uma plataforma única e pensa que os atores desse mercado são os principais agentes para oferecer o serviço ao cliente. “A Saraiva, os concorrentes e os editores têm a responsabilidade de liderar essa mudança, não as empresas de tecnologia”.

Ele comentou sobre a participação em redes sociais, como o Twitter, onde a Saraiva tem a impressionamente marca de quase 54 mil seguidores. “Eles não estão aqui só para pegar oferta. Eles brincam, reclamam, falam. Eles serão o nosso cliente do futuro”.

Para quem quer entrar nesse mercado, sugeriu: “Se não fizer de forma simples, não faça” Ele falou ainda sobre a expectativa dos compradores. “É terrível falar e explicar isso para o autor, mas o cliente quer e acha que tem o direito de receber algo de graça”.

Se a mudança for mal montada, vai gerar problema entre todos como estamos vendo nos Estados Unidos”. A Saraiva quer continuar construindo lojas e elas serão “templos dentro dos shoppings”. O investimento é alto e deve ser assim para toda a cadeia produtiva. “A gente vai ter que botar a mão no bolso. O maior entrave é onde investir o dinheiro para que esse negócio comece”.

Quanto aos preços, disse que está conversando com as editoras e não acredita em preços abusivamente baixos. Os descontos para as editoras devem seguir a regra do livro físico. “Não queremos ser predadores de preços, mas é lógico que queremos ser competitivos.

Variação de preço deve ser restrita

Jorge Carneiro, presidente do Grupo Ediouro, acredita que o livro eletrônico pode ajudar a atrair mais leitores. “Mas como não é uma solução para tudo não vai resolver”. Ele acha que os preços serão mais baixos. Ele contou que a Ediouro já está nesse mercado com a Singular, que vende os livros eletrônicos e faz impressão sob demanda. E sugeriu que mais gente entre no novo mercado. “Existe uma tendência de esperar definições nos Estados Unidos. Se pudermos ir começando e adotando o que preserva o valor do livro, é melhor ir começando”. Quando à cópia ilegal, disse “quem comprou o device não é uma pessoa propensa a fazer pirataria”. Ele explicou à plateia como está sendo a precificação nos Estados Unidos e afirmou que o Brasil não precisa ter o modelo de agência, “mas a variação deve ser restrita”.

Futuro chegou, mas não está homogeneamente distribuído

Silvio Meira, cientista-chefe do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife e presidente do conselho de administração do Porto Digital, contou que os primeiros livros no formato de hipertexto foram propostos na década de 60. “O que está acontecendo agora vem vendo construído, testado, há mais de 50 anos”. Para ele, o futuro já chegou, “mas ainda não está homogeneamente distribuído”. E disse que a revolução vem do futuro para o presente e não é uma consequência natural do passado. Repetiu o que outros palestrantes já haviam mencionado: a tecnologia não precisa estar pronta para começarmos a usar.

O que vem pela frente é chamado por Meira de conteúdo, e não mais livro. A ideia de livro digital só existe por causa da rede e talvez por isso devesse ser chamado de serviço e não de produto. “Rede é o nome do nosso jogo. Não é o livro ou o leitor”. Nesta economia do conhecimento, um bom negócio é uma comunidade com um propósito e não uma propriedade qualquer.

Sua preocupação é com relação ao formato. “Quais são as fundações da infra-estrutura de informação que façam com que um livro comprado em 2010 seja legível em 2050”, pergunta.

O modelo de livro do futuro vem do Facebook, do Google e de outras redes, e não através do pessoal que está digitalizando livro. Trata-se do modelo de formação de comunidades e não mais de disseminação de informação. “Estamos num momento de transição. Pode acontecer tudo ou nada. O método é experimentar”.

No encerramento, Hubert Alquéres, presidente da Imprensa Oficial, contou que pretendem fazer uma segunda rodada de discussão na Bienal do Livro.

PublishNews – 01/04/2010 – Maria Fernanda Rodrigues