A USP na ponta dos dedos


Grandes bibliotecas lançaram-se em políticas de digitalização. A digitalização diz respeito diretamente à universidade. É um meio de torná-la cada vez mais um agente produtor e propulsor da transmissão de informação. A Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP, por exemplo, disponibiliza mais de 18 mil documentos; e muitas revistas da USP têm migrado para o ambiente digital e estão disponíveis no portal SciELO – biblioteca eletrônica com 197 periódicos científicos brasileiros, criada em 1997 por meio de uma parceria entre a Fapesp e a Biblioteca Virtual em Saúde [Bireme]. Ainda para exemplificar com ações da USP, em junho de 2009 foi lançada a Brasiliana Digital, parte integrante do projeto Brasiliana USP que está construindo na Cidade Universitária um edifício moderno e tecnologicamente adequado para receber – tornando-a pública e acessível, pela internet – a biblioteca doada por José Mindlin e sua família.

O Estado de S. Paulo – 31/01/2010 – Por Celso Lafer e João Grandino Rodas

O que já dá para saber sobre o iPad


A Apple vai redefinir uma categoria de produtos, o que não é fácil”, disse Michael Gartenberg, do instituto de pesquisas Interpret LLCSteve Jobs nunca desaponta. O mestre das apresentações tomou o palco mais uma vez na última quarta-feira para revelar a entrada, esperada há muito tempo, da Apple no mercado de tablets. O iPad foi instantaneamente saudado como uma categoria inteiramente nova de produto e igualmente atacado como um aparelho de nome infeliz [pad, em inglês, quer dizer absorvente feminino] e sem muitas das características que eram reivindicadas por usuários.

Os primeiros exemplares do iPad – o nome foi imediatamente satirizado por mulheres no Twitter como iO.B. – chegarão às prateleiras norte-americanas em março com cara de iPhone grandão e realizando quase as mesmas funções que o smartphone da marca desempenha, só que em uma escala maior.

A Apple vai redefinir uma categoria de produtos, o que não é fácil de fazer“, disse Michael Gartenberg, vice-presidente de estratégias e análises da Interpret LLC, uma empresa de pesquisas de mercado.

Se o iPad virar sensação, o tablet pode acabar tendo enorme impacto na indústria da mídia. Editores de livros, revistas e jornais, todos têm antecipado a chegada dele e tentado descobrir maneiras de aproveitá-lo.

Um dos primeiros parceiros a entrar no palco de Jobs na quarta-feira foi o New York Times, e Martin Nisenholtz, o chefe de conteúdo digital do jornal, disse que o iPad combinaria o melhor do diário impresso com o melhor do online. As reportagens poderiam expor vídeos com fotos.

Estamos incrivelmente animados em explorar a próxima geração do jornalismo digital“, disse Nisenholtz.

A primeira empresa a confirma a existência do iPad, no dia anterior ao anúncio da Apple, foi o grupo McGraw-Hill, cujo CEO Terry McGraw disse que planejava produzir livros escolares para o aparelho. “Editores de livros agora têm um empresa bastante convincente e um produto interessante com que podem trabalhar“, disse Mike McGuire, vice-presidente de pesquisas da Gartner, empresa de análises e pesquisas do Vale do Silício. “Será interessante ver como a Amazon e a Sony responderão agora que a Apple entrou no mercado de venda de livros digitais.

O iPad está mirando diretamente no mercado de leitores de livros digitais, simbolizado pelo Kindle da Amazon, e no mercado de laptops. Jobs e outros executivos da Apple vangloriam-se da loja de livros digitais, a iBook Store, que facilitará a compra e a leitura de livros assim como o iPod e a iTunes Store fizeram, tornando popular a compra de música via web.

Jobs não disse quanto os livros irão custar. O que ele falou mesmo foi sobre as parcerias, já assinadas, com as cinco maiores editoras dos EUA [ Penguin, HarperCollins, Simon & Schuster, MacMillan e Hachette ]. No caso da iTunes Store, a política da Apple de vender músicas por 99 centavos de dólar cada irritou os executivos da indústria musical, que não puderam dar nem palpite sobre o preço cobrado por seus produtos.

ACERTOS E ERROS

A vantagem que o iPad parece ter sobre o Kindle e outros e-readers, como o Nook, da Barnes & Noble, e o Sony Reader, é que, além de ser um aparelho elegante, com páginas “viráveis” e índices de livros que se pode tocar com o dedo, também tem muitos outros destaques, como a habilidade de tocar filmes, colocar vídeos dentro do conteúdo de um livro e checar o e-mail. A desvantagem, por outro lado, é que, ao contrário do iPad, o Kindle e outros aparelhos são feitos para ler em qualquer condição de luz, mesmo ao sol [o que não acontece com o tablet da Apple]. Isso sem falar que os concorrentes largaram na frente da Apple, reunindo público leitor e editoras no mesmo lugar.

Jobs também partiu para o ataque aos netbooks – aqueles laptops pequenos, baratos, leves e que ganharam popularidade no ano passado – dizendo que eles não são particularmente úteis. A Apple fez um show de como seu software iWork faz do iPad um aparelho produtivo para os negócios – com ele, o aparelho cria documentos de texto, planilhas e apresentações de slide. O aparelho se conecta à internet tanto por Wi-Fi quanto por redes 3G.

Mas os netbooks podem rodar vários programas ao mesmo tempo, coisa que o iPad não faz e que é uma habilidade obrigatória para usar um aparelho para o trabalho. Muitos acreditam que enquanto a Apple não transformar o iPad em um aparelho multitarefa, ele vai atrair sobretudo usuários casuais e jogadores de games. E enquanto um netbook pode custar tão pouco quanto US$ 200, o preço do iPad começa em US$ 500, por um gadget que só tem Wi-Fi e 16 GB de memória. O valor pode chegar a US$ 830, por uma versão de 64 GB e conexão 3G [que ainda tem a mensalidade de uma operadora de celular].

Além do mais, o iPad não exibe sites em Flash – um problema que ele compartilha com o iPhone. Críticos também cutucaram que o iPad não tem câmera para filmar ou bater fotos.

Mas ele traz muitas novidades. E muitos comentários indicam que as pessoas mal esperam para comprar um. Ele é compatível com 140 mil aplicativos já disponíveis na App Store, e desenvolvedores estão trabalhando para criar programas específicos para ele.

Opa, estamos recebendo alguns iPads. Tipo, uns 20 deles”, escreveu no Twitter Ge Wang, cofundador da Smule, que faz aplicativos musicais para o iPhone, como o Ocarina e o LeafTrombone. Wang, que esteve no evento da Apple, disse que o iPad “combina a intimidade que as pessoas têm com o celular com o poder de um laptop“.

Om Malik, que cridou a rede de sites GigaOm, saudou Jobs por ter a coragem de criar um novo produto que pode competir com os outros eletrônicos da própria Apple. “Como você pode liderar uma empresa como se ela estivesse começando hoje?“, disse Malik. “É isso que o Steve Jobs faz. Ele vai canibalizar o mercado do MacBook, e canibalizar o mercado do iPod Touch, mas é isso mesmo que ele deve fazer.”

Com certeza o iPad também vai enfrentar a concorrência de fora da Apple. Quando a Microsoft lançou o Windows 7, no ano passado, já o deixou preparado para operar em telas sensíveis ao toque dos tablets, e muitos fabricantes começaram a mostrar seus produtos na Consumer Electronics Show em Las Vegas, no início deste ano.

Os primeiros iPads começam a ser vendidos em 60 dias, no início de março [ só os modelos com Wi-Fi]. As outras versões que também funcionam na rede 3G da operadora AT&T serão vendidos 30 dias depois. Mensalmente, os planos de dados, para usar a internet na rede 3G, irão custar US$ 15, por 250 MB de tráfego por mês, ou US$ 30 por um pacote ilimitado. E você pode cancelá-lo a qualquer momento.

A tela grande vai atrair uma ampla variedade de desenvolvedores, particularmente criadores de games e empresas de mídia. Gráficos e vídeos terão uma aparência muito melhor com as polegadas extras.

A Apple vai vender um teclado externo, mas o mesmo teclado virtual do iPhone está lá. Na horizontal, as teclas ficam quase tão grandes quanto as de um netbook, mas ainda assim elas ficam abarrotadas para teclar com os 10 dedos. Também dá para usar o teclado com o aparelho na vertical.

Coloque um desses [teclados externos] no escritório, e quando você quiser escrever o seu Guerra e Paz, ele está pronto“, disse Jobs. Outro acessório externo é um estojo que não apenas protege, mas também serve como base para o aparelho, útil para assistir a filmes.

Jobs disse que a Apple preparou tudo para rodar até melhor no iPad do que no MacBook ou no iPhone, desde navegar na web a ver fotos e checar e-mails, ou mesmo para ver calendários e mapas, na rua. Realmente os aplicativos são elegantes e inteligentes.

O iPad tem uma bateria com autonomia de 10 horas e menos materiais tóxicos – não tem arsênico ou mercúrio.

Vai matar o Kindle?

Jobs foi diplomático. Na apresentação, disse que “a Amazon fez um grande trabalho de pioneira“, mas que a Apple estaria agora na sua cola. Se não matar o Kindle, o iPad rouba boa parte dos clientes do Jeff Bezos. Com o lançamento de um gadget mais completo e da iBooks Store, o Kindle deve se voltar ao nicho daqueles que gostam ou que precisam ler muito. A vantagem do e-reader da Amazon é a tela de tinta eletrônica, que não emite luz, mais amigável aos longos períodos de leitura.

É só um iPhonão?

Que nada. O iPad está mais para um iPodão Touch, embora isso também não seja o suficiente para descrevê-lo. O tamanho da tela [9,71’] faz diferença na hora de ver filmes, séries e ler livros, revistas e jornais. O software da iBook Store, o iTunes das letras, deve satisfazer o pessoal que teima em forçar a vista lendo e-books no iPhone. Jobs brincou: “Se o tablet lembra um iPod, ao menos 250 milhões de pessoas já saberão usá-lo”.

Parceiros

Entre os jornais e as revistas, os grandes parceiros da Apple por enquanto são o jornal New York Times e a Condé Nast [que publica, entre outros títulos, Wired, New Yorker e Vogue]. Já a iBooks Store tem cinco das maiores editoras dos EUA: Penguin, HarperCollins, Simon & Schuster, Macmillan e Hachette. Disney e CBS estão responsáveis por levar a TV para o tablet. Eletronic Arts vai cuidar dos games.

Falta algo?

Falta, e muito: câmeras na frente e atrás para teleconferências, saída HDMI para conexão com um monitor HD, mais memória, entrada USB, suporte flash para vídeos em streaming e, principalmente, a capacidade de ser multitarefa. O pior é a incapacidade de rodar duas funções ao mesmo tempo. Ao que parece, o usuário do tablet da Apple não poderá ouvir uma música enquanto digita um texto.

Lembra?

Em maio de 2009, o Kindle DX era lançado e a capa do ‘Link’ perguntava se ele seria o iPod do papel. Aí nesta semana veio o iPad. E a gente resolveu aproveitar a mesma capa, afinal, foi só trocar o nome de um gadget pelo de outro. Será que a gente ainda vai usar essa capa mais algumas vezes. Ou será que agora foi?

Dan Fost – Estadão – 31/01/2010