“Facilito a pirataria de meus livros”


Paulo Coelho

Paulo Coelho gosta de quebrar barreiras e ultrapassar fronteiras para divulgar sua escrita. No início da semana, ele confirmou um acordo com a Amazon, uma das maiores livrarias virtuais do mundo, para a venda de 17 de suas obras pelo formato e-book em português. Trata-se de um dos primeiros autores nacionais a disponibilizar um material tão vasto na nova ferramenta. E também um novo caminho para atingir seu leitor no momento em que é obrigado a dividir a primazia das listas dos mais vendidos em todo o mundo com Dan Brown e seus códigos misteriosos.

A rede mundial, na verdade, não representa um mistério para Coelho. Afinal, quando boa parte do planeta buscava formas de combater as cópias ilegais, ele passou a oferecer em seu blog oficial links para download de 20 obras em português e traduções para outros seis idiomas. É o já conhecido Pirate Coelho [ http://paulocoelhoblog.com/pirate-coelho ]. “Coloco as traduções que encontro na internet, facilitando o trabalho de piratear meus livros“, justificou. No site, o escritor lembra que não detém os direitos autorais sobre as traduções e incentiva o internauta tanto a adquirir uma cópia legalizada ou, se for baixar o livro, distribuí-la gratuitamente em bibliotecas de cidades pequenas, hospitais e presídios.

Paulo Coelho tem um faro especial para compartilhar os anseios de seu leitor. Quando estava para lançar A Bruxa de Portobello [Planeta], por exemplo, em 2007, percebeu a grande intimidade de boa parte de seu público com as ferramentas da internet e, em parceria com o site de relacionamentos My Space, lançou um concurso chamado A Bruxa Experimental, em que leitores eram convidados a fazer um filme baseado nos personagens do livro. Sobre sua relação com as novas ferramentas, o escritor respondeu, por e-mail, às seguintes questões.

No Brasil, o eBook ainda é visto como um produto distante. O que você pensa dessa nova ferramenta?

Não é apenas no Brasil. Penso que temos ainda uns 5 anos para o e-book se tornar uma realidade em diversos países. Mas os editores já perceberam o problema – quando o eBook se estabelecer, o escritor vai prescindir do editor e ir diretamente para a livraria virtual – e estão muito incomodados. Incomodados mas sem nenhuma resposta concreta, além das discussões bizantinas sobre como encarar esta nova realidade. Quando resolvi comprar as traduções de meus livros, já que nunca vendi os direitos digitais, notei um completo desconhecimento do que estava acontecendo. Não queriam vender, mas não tinham o direito para publicar – e quando pedíamos uma resposta concreta sobre o que desejariam fazer, não tinham nenhuma resposta. Terminei tendo que usar o meu prestígio para conseguir comprar as traduções, mas foi quando notei que estão desorientados.

É possível dimensionar o tempo de transição entre a geração acostumada ao papel e aquela que viverá com aparelhos eletrônicos?

Assim como o teatro sobreviveu a tudo [cinema, televisão, etc.], o livro em papel também vai sobreviver. Mas o que estamos vendo no momento em diversos países do mundo, inclusive no Brasil? As livrarias independentes estão desaparecendo. O grande problema reside aí – não há nada que substitua uma boa livraria – pelo convívio, pela atmosfera, pela beleza. Não sei quanto tempo esta transição levará, bem menos do que imaginamos, e creio que a adaptação de todo o mercado será muito difícil. Por outro lado, o eBook tal como conhecemos hoje será em breve substituído pelos smartphones. Quando digo em breve, estou falando antes do final deste ano. E escrever para o formato do smartphone é muito difícil. O que me facilita muito é que tenho experiência com um blog diário no Brasil, e com o meu blog – textos curtos e diretos.

Você mantém uma intensa interação com seus leitores, acompanhando a visitação de seus blogs, até propondo participação em sua criação artística. Quais as principais vantagens dessa relação tão próxima?

A internet permitiu isso. O que me surpreende é que outros escritores não estejam fazendo o mesmo, já que esta interação é muito enriquecedora. No fundo, a matéria-prima de qualquer livro é o ser humano – e o que tenho feito com meu blog e as duas comunidades sociais de que participo [Tweeter e Facebook] me deixa muito satisfeito.

Aliás, você nota alguma mudança no perfil de seu leitor?

Eu noto esta mudança, mas não através da internet. Vejo que os leitores de Onze Minutos, por exemplo, não são os mesmos que leram O Diário de Um Mago ou O Alquimista, publicados 15 anos antes. Então o que acontece? Os leitores se renovam, o que é bom para o escritor – que tem que se renovar também.

Você chegou a perguntar a Fernando Morais sobre quanto tempo demoraria para seus livros serem esquecidos. Acredita em uma vida longa [ou mesmo eterna] a partir do mundo digital?

A carta no final da biografia é mais retórica do que qualquer outra coisa. Mas acredito que o mundo digital oferece essa possibilidade. E tenho exemplos concretos a respeito: filmes. Vários filmes que eu gostaria de ter visto e desapareceram do mapa e das locadoras, podem ser encontrados em sites P2P. Então o cinema renasce, apesar de as pessoas chamarem isso de “pirataria”.

Você já pensou em utilizar as novas ferramentas, a internet e seus correlatos [Twitter, Facebook, etc.] como material para uma trama?

Sim, pensei em fazer um livro com as minhas frases no Twitter, mas apenas para a comunidade que ali está. Não será vendido em livrarias, será dado de graça em formato digital. O escritor escreve para ser lido. Podem dizer que eu me dou a esse luxo porque já vendi mais de 135 milhões de cópias, mas não é verdade. Qualquer escritor quer compartilhar suas emoções e suas experiências.

Uma das grandes preocupações atuais dos editores diz respeito aos direitos autorais digitais. Como os autores devem se posicionar em relação a isso?

Conhecer como funciona. Não creio que a preocupação dos editores esteja ligada aos direitos autorais. Mas qualquer autor hoje precisa saber como funciona.

E você teme a pirataria de eBooks?

Eu não temo pirataria em nenhuma área. Veja a resposta que dei sobre o cinema – se não fossem os sites de compartilhar arquivos, não poderia ver muitos dos filmes que estavam na minha lista, mas tinham desaparecido do mercado. Por sinal, tenho meu site Pirate Coelho e, entre a primeira resposta e essa, vi que foram baixados 155 arquivos em diversos países do mundo.

O Estado de S. Paulo – 16/01/2010 – Por Ubiratan Brasil

Leitores de livros eletrônicos viram tendência em 2010


Se leitor de livro eletrônico é sinônimo de Kindle para você, prepare-se para conhecer uma enxurrada de novas opções ao longo deste ano. A CES [Consumers Electronic Show], feira que aconteceu em Las Vegas no começo do mês, reservou um espaço de exibição para diversas empresas que comercializam esses aparelhos. A maioria não passa de um primo pobre do Kindle, mas alguns inovam ao permitir a visualização de conteúdo multimídia.

Um dos destaques entre os e-readers foi o Que, da Plastic Logic. O aparelho tem uma enorme tela sensível ao toque de 11 polegadas, que permite visualizar com conforto documentos em PDF, arquivos do Microsoft Word, apresentações do PowerPoint e planilhas em Excel, além de jornais e revistas.

QUE proReader. Photo: Andrew Gombert - EFE

Finíssimo e pesando menos de meio quilo, o aparelho é voltado para homens de negócio. Por isso, conta com espaço para agenda, anotações e permite usar contas de e-mail. É possível, ainda, fazer anotações e grifar trechos. “A nossa ideia é substituir o papel de uma maneira confortável, intuitiva”, disse à Folha Sarah Gaeta, diretora de gestão de conteúdo de produtos da Plastic Logic.

O Que deve chegar ao mercado norte-americano em abril por US$ 649 [com 4 Gbytes de memória e Wi-Fi] e US$ 799 [8 Gbytes, Wi-Fi e 3G].

Um concorrente direto do Que é o Skiff, que conta com uma tela de 11,5 polegadas e foi feito, principalmente, para permitir a leitura de jornais e revistas, além de e-books e documentos. O aparelho tem tela sensível ao toque e sua bateria dura uma semana, segundo a sua fabricante, a Hearst.

A Sony também mostrou seus modelos de leitores eletrônicos. O Pocket Edition, como o nome diz, tem tamanho similar ao de um livro de bolso -a tela é de 5 polegadas. Já o Daily Edition, que conta com 3G, tem tela de 7 polegadas e é recomendado para quem gosta de ler jornais e revistas.

Já a Samsung apresentou os modelos E6 e E101, que contam com Wi-Fi e permitem fazer anotações e compartilhar títulos com outros aparelhos.

Multimídia

Um dos aparelhos que mais chamaram a atenção nos corredores da CES foi o Entourage Edge, uma mistura de eReader e netbook. O dispositivo parece um caderno e conta com duas telas: uma de 9,7 polegadas, com E Ink, e outra sensível ao toque com 10 polegadas.

A tela de LCD é colorida e permite acessar a internet e rodar aplicativos da plataforma Android. As duas telas conseguem se comunicar. Se você está lendo um texto no eReader e encontra um gráfico, consegue movê-lo para a tela de LCD, com uma canetinha. Desse modo, o gráfico ganha cores. O Edge tem entrada USB e para cartão SD, se conecta por Wi-Fi, possui câmera e microfones. O aparelho estará disponível em fevereiro, por US$ 490.

E a busca por consumidores entusiasmados é tão grande que existe até e-reader voltado para quem gosta de cozinhar. Trata-se do Demy, que traz diversas receitas e permite ao aprendiz de chef incluir suas invenções. Com tela sensível ao toque, o aparelho é à prova d’água e custa US$ 199.

DANIELA ARRAIS – enviada especial da Folha de S.Paulo a Las Vegas – 16/01/2010 – 08h01