Leitores digitais em alta


Foi encerrada no domingo, dia 10, a International Consumer Electronics Show 2010, em Las Vegas [EUA]. Uma das seções mais movimentadas foi a de leitores digitais. Consumidores curiosos lotaram os estandes que exibiam aparelhos de todas as cores, e marcas variadas. A grande procura demonstra um aumento crescente do interesse dos consumidores por livros digitais. De acordo com a Amazon, em dezembro de 2009 o livro para Kindle vendeu mais que o tradicional livro físico. Segundo os fãs desta nova mídia, o livro digital possui vantagens, como o fato de ser ecológico e portátil. Além disso, poupa espaço em estantes, uma vez que pode armazenar até 1.500 obras. Para compreender e acompanhar este mercado que começa a ser desenhado, a CBL abordará o tema, em março de 2010, no 36º Encontro Nacional de Editores e Livreiros.

CBL Informa – 13/01/2010 – Por Redação

A indústria editorial e as mídias digitais


As emergentes mídias digitais estão influenciando diretamente no concorrido tempo dos consumidores modernos e transformando o hábito de leitura de todo o mundo.

O texto não é mais lido apenas no papel. Ele está onipresente em uma miríade de suportes suspensos e em uma diversidade de aparelhos tecnológicos, móveis e de comunicação. E uma série de meios é o que promete transformar definitivamente a realidade dos livros, jornais e revistas através de uma convergência digital e cultural sem precedentes.

Ednei Procópio – Exclusivo para a Brasil Que Lê – 13/01/2010

A INDÚSTRIA EDITORIAL E AS MÍDIAS DIGITAIS

Será que o livro realmente acabou como o conhecemos? A minha convicção é a de que não. O livro não acabou como o conhecemos. O livro apenas está evoluindo, como é de se esperar, para os novos suportes ou plataformas tecnológicas. Mas o livro continuará a existir, não importa se ele será impresso em papel ou em uma tela de E-Ink.

Dito isto, vamos adiante.

A emergência de inúmeros modelos de leitores eletrônicos [ eReaders ] parece querer sinalizar o fim do livro em formato papel. É o caso do device Nook, da Barnes & Noble [a maior cadeia de livrarias no mundo]; a versão internacional do device Kindle, da Amazon; ou mesmo de outros dispositivos como os da família de eBook Readers da Sony, que conta com uma versão com tela de 7 polegadas e conexão 3G, voltado para jornais e revistas, além de um modelo de 6 polegadas com tela sensível a toque, sem contar inúmeros outras versões de fabricantes menos conhecidos [principalmente equipamentos chineses].

A promessa que estes players oferecem é atraente: a portabilidade, capacidade de armazenamento de incontáveis títulos em um mesmo dispositivo, incluindo aí a capacidade sem par de indexação das informações contidas em uma obra, a abertura para conter as anotações pessoais do leitor, entre outras ferramentas que se convertem em vantagens se comparados ao livro em sua versão em papel.

Fosse apenas o caso da transição da leitura para o suporte eletrônico [hardware] não seria tão problemático, uma vez que os modelos estabelecidos de produção, promoção e distribuição se manteriam para os livros da forma digital, do mesmo modo como acontece com os livros em formato papel. Contudo, esta mudança é apenas parte de uma revolução tecnológica mais profunda e que agora parece ocupar o espaço dos negócios dos editores porque parece ameaçar o modelo editorial convencional. Mas esta preocupação se justifica?

É fato que a revolução da tecnologia, associada à evolução da Internet democratizou o acesso a meios de produção. A emergência de blogs e outras formas de manifestação criativa, por meio das redes sociais, como o Shelfari por exemplo, fez a ponte entre os autores e leitores potenciais. Foi aí que surgiu o verdadeiro desafio. Se a disseminação de novas obras se tornou possível, por outro lado, o leitor mudou, em alguns casos usando a tecnologia para subverter o circuito convencional de consumo dos livros. Se a palavra que veio à sua mente é pirataria, acertou em cheio.

O FANTASMA DA PIRATARIA
Tomemos por exemplo a ansiedade galopante dos fãs da série Harry Potter, que fazia surgir versões traduzidas dos livros em novos mercados antes mesmo que as versões oficiais da obra fossem publicadas. Para efeito de quebrar este circuito e evitar a perda de vendas, a editora Bloomsbury Publishing Plc passou a ter de lidar com o sigilo e a logística de lançamentos em escala global. Isto sem falar nas chamadas fan ficcions, cujos textos dos próprios leitores foram criados para saciar ainda mais o desejo do fandom em torno da franquia. Ou seja, os próprios leitores passaram também a criar histórias de seus personagens favoritos e a compartilhá-los na internet para os demais fãs desta e de outras séries.

Mas o outro tipo de pirataria praticada por leitores não é o único no cerne das preocupações da indústria livreira. Antes é no desvão da gestão de direitos de propriedade que está o grande desafio. Serviços como o Google Books, que indexam milhões de livros representa um enorme desafio para o mercado. É bem verdade que os donos dos direitos sobre livros, autores e editores possuem gerência sobre a publicação ou não de partes ou da íntegra dos textos na rede para leitura gratuita. Só que, fora o Google, existem ainda outros serviços em que este respeito não está tão claro, como eMule [ www.emule-project.net ] e o Scribd [ scribd.com ].

No Scribd, por exemplo, não é difícil encontrar cópias não autorizadas de obras de qualquer país ou autor, inclusive obras de brasileiros, em que pese ser um serviço amigável para divulgação de documentos em vários formatos, como compêndios técnicos ou manuais. No afã de oferecer um serviço diferencial, agem muitas vezes às margens do mercado editorial, subvertem o respeito ao direito autoral e criam bancos de dados de livros piratas, o que nivela a indústria livreira ao drama vivido por produtores de filmes ou da indústria musical. Os textos e livros são postados no citado Scribd pelos próprios usuários, portanto, serviços deste tipo se tornam mais corrosivos ao mercado do que aquele oferecido pelo próprio Google Books.

MODELOS CONEXOS
Já que mencionamos a indústria musical, é o caso de se falar de alguns experimentos bem-sucedidos como é o caso da loja iTunes, da Apple, que criou uma associação de banco de dados de músicas, que poderiam ser vendidas por preços acessíveis, por faixa, para tocadores específicos. Ainda no ramo musical, há o caso da OviStore, da Nokia, que tem praticado uma estratégia diferente: há a venda de faixas individuais e álbuns, mas na venda de alguns celulares ‘premium’, o consumidor pode baixar quantas músicas quiser por um período, que atualmente é de um ano. Como é feita a remuneração dos músicos neste caso, ainda é incerto, mas as músicas são protegidas por direito autoral. Enfim, são modelos que devem ser avaliados pelo mercado de livros.

No caso da App Store, há um caso análogo, que é o da Amazon. A grande varejista virtual apostou na venda de livros em formato eletrônico para aquele device eletrônico também vendido por ela, o Kindle, e que chegou agora em uma versão internacional, com tela maior até com uma plataforma que pode ser adquirida em mais de 250 países no mundo todo.

Particularmente, depois de testar pessoalmente dezenas de eReaders, ainda considero o Kindle de longe o mais fraco de todos os devices. E considero o modelo de negócio da Amazon, para livro eletrônico, também algo ainda irreal, pelo menos para o mercado editorial brasileiro. Considero que não serve. A plataforma Google Books parece fazer muito mais sentido para nós. Mas, independente de minha opinião pessoal [é quase impossível para mim não expressa-la], é fácil reparar na apreensão do mercado editorial mundial em torno deste caso e também a falácia da imprensa em querer desmoralizar o mercado de livros em papel. Pois a sensação que eu tenho é a de que a imprensa quer ver o “circo pegar fogo”, para usar uma expressão popular e, com isto, bagunçar todo o meio de campo.

DIGITAL RIGHTS MANAGEMENT
Em julho de 2009, a Amazon apagou cópias do clássico da Ficção Cientifica “1984”, de George Orwell dos Kindles de usuários que haviam comprado o título. A alegação na época era a de que a versão eletrônica do livro havia sido fornecida à sua loja virtual por uma editora [lê-se: um usuário qualquer] que não tinha autorização para comercializar obras de Orwell. A Amazon, na ocasião, para compensar o fato, enviou um e-mail aos leitores afetados afirmando que eles seriam reembolsados por meio de um cheque a ser enviado pelo correio. O mal estar, no entanto, foi causado pelo apagamento dos arquivos sem a permissão dos usuários da livraria online, o que abriu um precedente sobre questões de privacidade envolvendo o Kindle e seus conteúdos.

O que nós percebemos, neste caso, não é exatamente um problema que os livros eletrônicos podem trazer, mas o contrário: a facilidade de controle e gerência sobre um determinado conteúdo. Se a Amazon tivesse vendido a versão impressa do mesmo livro, ela poderia pedir o livro de volta para os seus consumidores? É claro que não conseguiria os livros de volta.

Mas vamos supor que a Amazon tivesse vendido a biografia proibida do Roberto Carlos em versão eletrônica. Seria mais fácil para o juiz que determinou a retirada dos livros impressos das livrarias brasileiras mandar retirar também os livros de dentro dos devices? E eu às vezes me pergunto isto porque a tal biografia proibida de Roberto Carlos até hoje está disponível para download na rede em uma versão pirata. O autor da obra, o historiador Paulo César de Araújo, quando soube que, após ter sido proibida, a sua obra estava disponível na rede em versão digital e áudio exclamou o seguinte:

“O livro está vivo!”

Enfim, os leitores do Kindle não precisam da autorização da Amazon para ler o “1984”. Basta entrar no site do Projeto Gutemberg [este sim o pioneiro de todos] e baixar a obra. E a minha conclusão é a de que apenas houve um processo mal conduzido dentro da Amazon que culminou neste fato. Mas é fascinante pensar e saber o quão é fácil gerenciar conteúdo de livros através dos equipamentos eletrônicos. Uma coisa é certa, o sistema de Digital Rights Management da Amazon parece funcionar tão bem [ que o hacker israelense Labba não leia isto ] que até serve para deletar arbitrariamente os livros dos usuários como se fosse o próprio Big Brother.

Este caso é mais um indicador que explica porque ainda não exista um modelo estabelecido para a venda de livros em meio eletrônico. Há tempos é possível comercializar livros com proteção contra cópia no formato PDF [ Portable Document Format ], plataforma de publicação da Adobe, o que permitiria a leitura em computadores pessoais, por exemplo. O formato tem sido usado para a distribuição de livros que já caíram em domínio público. É o caso de vários títulos que podem ser encontrados no eBookCult [ www.ebookcult.com.br ], um website por mim fundado em 2001.

Mantidos os modelos estabelecidos, é de se esperar que o livro eletrônico percorra o mesmo caminho de outros dispositivos digitais, ficando restrito a uma camada de usuários iniciantes amantes de tecnologia [ hard users ], ganhando massa crítica aos poucos conforme baixam os custos unitários dos equipamentos [ como é o caso do Kindle que bateu todos os recordes de venda no Natal de 2009 ].

Mas e com relação ao conteúdo?

CONVERSÃO
Algo que o Mercado Editorial precisa avaliar agora é a velocidade com a qual os livros são digitalizados. O nível de aprendizagem do consumidor está tendo uma curva cada vez mais íngreme e acentuada. Isto nos faz refletir sobre a rapidez com que o rádio, a televisão ou o celular passou a fazer parte da vida das pessoas e a velocidade que irá prevalecer com relação à adesão dos livros eletrônicos.

Segundo Kevin Kelly, autor do livro “Novas Regras para uma Nova Economia”, cerca de um milhão de livros estão sendo escaneados anualmente. No Vale do silício, a Universidade de Stanford digitaliza todo o seu acervo de 8 milhões de títulos. Na China são digitalizadas 100 mil páginas por dia. O Google está digitalizando 10 milhões de livros por ano. Aproximadamente 10% de todos os livros atualmente impressos serão digitalizados até 2014.

COMISSÃO DO LIVRO DIGITAL
Ciente do desafio que enfrentaremos, a Câmara Brasileira do Livro conta com uma comissão que está desenvolvendo estudos sobre a viabilidade e os impactos do mercado do livro digital no Brasil, bem como aspectos operacionais e legais envolvidos. A Comissão do Livro Digital, da qual faço parte, já encontrou alguns caminhos que em breve serão divulgados para o mercado. Um deles, seria a adoção do padrão Open eBook da International Digital Publishing Forum [ IDPF ], conhecido como ePub, como forma de viabilizar ainda mais os negócios digitais de livros em nosso mercado.

Mas qualquer que seja o caminho, o que permanece é que o livro em papel ainda se mantém na preferência do leitor médio, seja pela familiaridade, pela comodidade e também pelo custo. Em seu livro FREE, o autor Chris Anderson, editor sênior da revista Wired, nos diz o seguinte:

“Os livros em papel representam um caso especial de mídia impressa da qual a forma física ainda é preferida pela maioria. Felizmente, a indústria de livros não está em queda… Enquanto os leitores continuarem a querer livros feitos de átomos, e não de bits, continuarão a pagar por eles”.

CONVERGÊNCIA
Um outro jornalista perguntou ao Professor da USP Luli Radfahrer, Ph.D em comunicação digital, se os novos provedores de conteúdo ameaçam as mídias tradicionais. Eis a resposta:

“Não enquanto não houver um equipamento wireless [ hardware ] que receba informações [ conteúdo ] e que possa ser lido e manuseado como uma espécie de papel. O que mais se aproxima disso atualmente é o Kindle, mas mesmo assim é um modelo ruim. Enquanto isto não ocorrer e os provedores tiverem poder para imprimir informações em papel, eles não são ameaçados.”

Considero que, apesar de toda a confusão em torno do assunto, o professor esteja correto em sua colocação, mas o Kindle não é o equipamento que mais se aproxima do papel. Na verdade, o Kindle é uma porcaria, um lixo tecnológico de segunda categoria fabricado na China, cujos engenheiros e designers parece nunca ter pegado um livro na vida, tal a falta de comodidade e legibilidade do equipamento.

E para não parecer algo indelicado falar deste modo do equipamento da Amazon, gostaria de deixar registrado que um dos melhores equipamento disponíveis no mercado hoje é o fabricado pela empresa IREX Technologies [ www.irextechnologies.com ]. A IREX disponibiliza cerca de três modelos de equipamentos, entre eles o iLiad Book Edition que pode muito bem sim substituir o suporte papel a médio prazo. E sugiro também o device lançado pela Barnes & Noble.

Eu estudo os e-readers desde 1998 a até hoje eu não tinha visto um protótipo de eReader tão bacana quanto o ALEX Reader, da empresa Spring Design. O device ALEX é muito parecido com o device nook, da Barnes & Nobles. Inclusive a empresa Spring Design está processando a Barnes & Nobles por quebra de patente.

Não sei quem copiou quem [ vai confiar em fabrica chinesa! ], mas o fato é que este ALEX Reader é perfeito. Ele une o E-INK sem touch-screen para a leitura do livro na parte de cima [ o que resolve o problema de custos do equipamento, porque o E-INK com  touch-screen é muito caro ]; e uma outra tela com touch-screen colorida em baixo [ o que resolveria o lance das capas coloridas dos livros e a simulação de uma biblioteca igual ao software Stanza usado no iPhone ]. A idéia é simples, mas genial. Mil vezes melhor que aquele lixo do Kindle que tem umas 40 teclas.

ALEX Reader roda o sistema operacional Android [ leia-se Google ] que é um OS open source e já tem disponível uma centena de aplicativos como o iPhone. Um deles é o software para livros eletrônicos que roda no Android OS também, o Aldiko, que eu também considero sensacional:http://www.aldiko.com. Detalhe o ALEX Reader é 100% compatível com ePub. Só falta agora os engenheiros da Spring Design integrarem o e-reader ALEX diretamente ao Google Books. Porque o Nook da Barnes & Nobles já tem uns 700 mil títulos digitais disponíveis. Bem mais que os 270 da Amazon. Mas o ALEX não tem conteúdo ainda.

Porém, penso que a questão dos eBooks não reside nos equipamentos disponíveis no mercado, que muitas vezes não cuidam do design como a Apple faz muito bem com os seus produtos, e que em breve pretende mais uma vez demonstrar isto com o lançamento do seu tão aguardado tablet, mas o problema reside na ausência de um modelo de negócio eficiente e que contemple o mercado editorial mundial.

O hardware [ aqui no caso tanto a tecnologia E-Ink quanto a commodity papel ] sempre diverge enquanto suporte; mas o conteúdo sempre converge independente da plataforma. O sucesso do iPod está no modelo de negócios da plataforma iTunes cujo conceito inclui um conteúdo integrado.

Diante disso, surge a questão: há uma síntese possível?

Sim. O segredo do sucesso dos livros eletrônicos enquanto negócio para o mercado editorial está na arte que converge o hardware, o software e o conteúdo. Quando houver um modelo de negócio para livros eletrônicos que consiga suprir estes três itens de modo qualitativo, aí sim haverá um modelo eficiente em quem podemos confiar os nossos investimentos.

PREVISIBILIDADE
Sobre o futuro do livro eletrônico, são infinitas as possibilidades. Cogita-se, por exemplo, a adoção de telas coloridas e sensíveis ao toque, a exemplo de computadores de mão. Mas ainda não é possível precisar se isto de fato realmente irá ocorrer porque quando se fala em E-Ink colorido estamos falando de um custo que é praticamente 80% dos equipamentos. Não sabemos ainda se haverá mercado para equipamentos neste sentido.

De qualquer modo, há a comodidade do uso acadêmico dos eReaders, em que enciclopédias e livros de referência poderiam ser facilmente armazenados num único suporte eletrônico, incluindo aí a leitura de periódicos técnicos ou mesmo de interesse geral, como jornais e revistas, que cobrariam uma assinatura mais barata pelo consumo de versões eletrônicas. Seria a salvação para a imprensa, que sofre com a queda de receita e o número cada vez menor de leitores e assinantes em papel; ao mesmo tempo em que estes poderiam reduzir seus custos, eliminando o de impressão e distribuição de papel.

Não podemos esquecer da questão da democratização do acesso: se existe um abismo digital, diferenciando os que têm ou não acesso à tecnologia, há ainda o abismo entre os leitores e os que nunca manusearam um livro, ou seja, a digitalização poderia facilitar o acesso dos leitores, incluindo outras formas de interação ou o acesso a obras raras, caso do projeto Brasiliana [www.brasiliana.usp.br/blog ], que conta com mais de 5 mil títulos para consulta [ doados pelo mestre Midlin ].

E há alguns brasileiros que desde já se destacam nessa nova seara, como o prolífico Paulo Coelho, que disponibilizou todos os seus novos livros para download gratuito na Internet, em vários idiomas. Prova de que, neste novo caminho, ainda existe muito a explorar. Paulo Coelho é um dos poucos escritores brasileiros que desde cedo percebeu o potencial dos livros eletrônicos enquanto canal de divulgação para a versão em papel de suas obras.

CONCLUINDO
Não considero o livro eletrônico como o maior concorrente do livro em papel. Como editor, encaro os suportes emergentes como quem fosse escolher entre um Pólen Soft 80 ou um papel Alta Alvura 75 gramas. Em alguns casos, um determinado conteúdo a ser publicado pode muito bem ser oferecido na plataforma iPhone, por exemplo, ou até mesmo em um PlayStation Portátil. Para nós, jovens editores, tudo depende da base instalada de usuários. Um dos livros que a nossa editora publicou, o “Angel Dogs”, foi disponibilizado inicialmente apenas nos formatos impresso e eletrônico, mas, recentemente, em um parceria com a AUDIOLIVRO Editora, nós também publicamos o mesmo título no formato MP3. Ou seja, o mesmo livro, um mesmo conteúdo, em três formatos distintos.

O fato é que talvez tenhamos de reconsiderar não o eBook em si, mas todo o escopo de possibilidades de todas as mídias digitais como sendo o real concorrente ou uma real oportunidade de alavancar os nossos negócios editoriais. As mídias digitais estão minando a atenção dos leitores e concorrendo diretamente com o pouco de tempo que os leitores poderiam dispensar especificamente para a leitura dos livros impressos. Aí sim, talvez percebêssemos que afinal o livro eletrônico não é assim uma má idéia.

UM CASE BRASILEIRO
Novos serviços mostram que existem alguns caminhos, como o novo portal Livrus [www.livrus.com ]. Trata-se de uma plataforma online que explora alguns dos princípios dos sites de mídias sociais, porém aplicados aos livros. Criado pela Giz Editorial, trata-se do primeiro serviço do tipo disponível em língua portuguesa.

De acesso gratuito, o serviço online permite que usuários interessados criem uma base de dados sobre suas obras favoritas, criação e divulgação de resenhas e recomendações. Há também um módulo de utilização destinado a autores, que podem listar suas obras, apresentando informações e detalhes dos livros escritos, além de divulgar sua participação em eventos como lançamento de novas publicações.

O serviço pretende aproximar leitores segundo assuntos de interesse, facilitando a troca de idéias e a recomendação de novos títulos. O serviço se vale de processos comuns em sites de música, em que um fã de um gênero específico chega a novos músicos ou grupos com base nas indicações de pessoas com gosto similar ao dele. A Livrus segue pela mesma rota.

Fruto de um investimento inicial de US$ 25 mil em desenvolvimento, o serviço tem ainda recursos provisionados da ordem de US$ 40 mil, para um período de 12 meses. Os recursos serão usados para a expansão das funcionalidades e no suporte ao crescimento na base de usuários. Os recursos foram angariados pela própria Giz Editorial, em conjunto com investidores do mercado e a expectativa é de que o serviço retorne os investimentos até o final de 2012. O foco inicial está na consolidação de uma base sólida de usuários e na manutenção de bons níveis de serviço.

Dada a gratuidade para os usuários, o site buscará receitas com a venda de anúncios publicitários de títulos, editoras e autores, com suporte a ações de rich media. Outra fonte de receita está na formação de parcerias comerciais com autores, editoras e demais agentes do mercado editorial. O site também prevê para breve módulos que permitirão realizar ações de e-commerce de parceiros. Será o primeiro online a publicar e disponibilizar obras em três formatos: impresso [ incluindo print on demand ], livro eletrônico [ eBook ] e audiobook.

PAINEL MUNDIAL DOS LIVROS DIGITAIS

ESTADOS UNIDOS
• Os Estados Unidos apresentam o maior mercado para eBooks até o momento, tendo movimentado cerca de US$ 113 milhões no último ano de 2008.

• Há uma estimativa de venda de 3 milhões de leitores eletrônicos [ e-readers ] nos Estados Unidos em 2009.

• A consultoria iSuppli espera que as vendas de e-readers no mundo todo superem os 5 milhões de unidades em 2009, ante 1 milhão registrado no ano anterior, 2008. De acordo com a pesquisa de mercado realizada pela iSuppli, há uma previsão de venda de 5,2 milhões em 2009, mais da metade nos EUA.

• Hoje, estima-se que 60% das apostilas e dos livros didáticos das universidades americanas estão disponíveis no formato digital.

ASSOCIAÇÃO NORTE AMERICANA DE EDITORES
• Segundo a Associação Norte americana de Editores [AAP] já existem cerca de 80 editoras comercializando eBooks diariamente.

• AAP indica que as vendas de eBooks somaram 20 milhões de dólares em 2003, ante 113 milhões de dólares em 2008. O aumento nesse período foi de 465%. Só no primeiro semestre de 2009, o crescimento foi de 150%. Hoje, os eBooks representam apenas 1% do mercado.

• A AAP divulgou que os livros digitais [compatíveis com leitores como o Kindle] responderam por 1,6% de todos os livros comprados no primeiro semestre de 2009. As vendas aumentam rápido: os eBooks somaram US$ 81,5 milhões no primeiro semestre, nos EUA, contra US$ 29,8 milhões no mesmo período de 2008.

Barnes & Noble
• A livraria online da Barnes & Noble já disponibiliza mais de 700 mil títulos digitais que podem ser lidos em dispositivos como o iPhone, da Apple.

• William Lynch, presidente de negócios online da Barnes & Noble, diz que “planeja promover agressiva e criativamente os eBooks” para os 77 milhões de clientes que passam pelas suas lojas todo ano.

DIGITALIDADE
• Segundo a agência Bowker [entidade privada americana que emite ISBN] houve um crescimento de 132% no número de livros produzidos por meio de impressão sob demanda de conteúdo online.

• Segundo Adam Rothberg, VP de comunicações corporativas da Simon & Schuster, as vendas de eBooks, embora tenham crescido de modo considerável em 2009, se mantiveram em apenas 1,6% do total de vendas em julho.

• Segundo o relatório “Book Industry Trends 2009”, da consultoria Forrester Research, as editoras de livros aumentaram suas receitas em 1% nos EUA no ano passado, em 2008, para US$ 40,3 bilhões.

• A Forrester Research estima que o Amazon Kindle e o Sony Reader tenham vendido, cada um, 1 milhão de unidades nos Estados Unidos até o final do ano de 2008, podendo dobrar, em volume de unidades, até o final de 2009.

• Segundo o estudo da Forrester Research, as vendas de leitores digitais, e-readers, devem somar 3 milhões no mercado norte-americano em 2009. Deste total, a Amazon responde por 60%, enquanto a Sony tem 35% do mercado.

• Em 2014, tal cota de venda de e-readers pode atingir a casa dos 30 milhões.

• Segundo Kevin Kelly, autor do livro “Novas Regras para uma Nova Economia”, pelos menos um milhão de livros estão sendo digitalizados anualmente.

• No Vale do Silício, a Universidade de Stanford digitaliza todo o seu acervo de oito milhões de títulos.

• Aproximadamente 10% de todos os livros atualmente impressos serão digitalizados até 2014.

• Nos EUA, de cada 5 títulos 1 sai no formato de Áudio Books. Fonte: Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil

AMAZON KINDLE
• No início de 2009, as versões eletrônicas de livros representavam 13% dos títulos comercializados pela Amazon. Em maio de 2009, esse número chegou a 35% e, em outubro, passou dos 48%.

• Em outubro de 2009 havia 360 mil livros digitais disponíveis no site da Amazon e que poderiam ser adquiridos e acessados através do sistema Kindle. Antes do lançamento do Kindle Internacional o número era de 275 mil livros disponíveis para o e-reader Kindle.

• Proprietários do Amazon Kindle compram atualmente 3 vezes mais livros do que antes de adquirirem o dispositivo.

• Segundo Jeff Bezos, diretor-executivo da Amazon, o produto Kindle é o produto mais vendido da loja virtual.

• Segundo a Amazon, de cada 4 exemplares vendidos de uma determinada obra, uma já é digital.

• Segundo a Amazon, um mesmo título que tenha uma versão digital para o Kindle vende 35% mais exemplares.

• Segundo a Amazon há 48 cópias vendidas para o Kindle de cada cem cópias físicas comercializadas no site. Em junho de 2009 esse número era de 35 para cada 100.

• Segundo uma estimativa do analista Mark Mahaney, do Citigroup, foram comercializados cerca de 500 mil Kindles em 2008. Neste ano, com o avanço internacional, devem dobrar.

• Dos 2 milhões de cópias vendidas do livro “O Símbolo Perdido”, do escritor Dan Brown, 100 mil eram em formato digital. Um dos motivos foi o preço: custava só US$ 9,99; e tinha a praticidade de chegar às mãos do leitor em apenas 60 segundos.

GOOGLE BOOKS
• O Google está digitalizando cerca de 1 milhões de livros por ano.

• O Google quer chegar a 5 milhões em meados de 2010.

• O Google anunciou em setembro de 2009 que já digitalizou mais de 3,6 milhões de livros de domínio público.

• O Google Books já contabiliza no total 7 milhões de livros digitalizados. Fonte: Revista Super Interessante.

• O Google Books já contabiliza 20 mil editoras parceiras. Fonte: Revista Época.

 

SONY READER
• Em 2007, a Sony já disponibilizava mais de 12 mil obras online para download em seu Reader.

• Segundo a própria Sony, os seus consumidores de eBooks fazem o download de uma média de 8 livros mensais a partir da biblioteca online da empresa [para serem lidos no device Sony Reader].

• A Sony assinou um acordo com o Google para oferecer gratuitamente, aos usuários do Sony Reader, o download de mais de 500 mil títulos que caíram em domínio público armazenados no serviço Google Books.

EUROPA
• No Reino Unido, uma pesquisa do YouGov concluiu que a Sony é a marca mais conhecida quando se trata de eBooks, com 65% dos potenciais consumidores afirmando que comprariam o device Sony Reader. A Amazon e Apple vêem a seguir, com 42% para o Kindle e 35% para o novo iPad.

• Segundo dados da Associação de Livreiros do Reino Unido, os eBooks já representam cerca de 1% do mercado editorial europeu.

• A Alemanha registrou a venda de 65 mil títulos, livros digitais, vendidos no primeiro semestre de 2009.

• A conclusão de uma pesquisa feita pelos organizadores da 61ª Feira do Livro de Frankfurt é a de que em 2018 o livro digital deverá desbancar a tradicional versão em papel.

EU BOOKSHOP
• A Comunidade Européia disponibiliza de graça na internet mais de 50 anos de documentos em cerca de 50 idiomas. Fonte: The Bookseller

• Cerca de 110 mil publicações [ou 12 milhões de páginas], equivalentes a 4 km de estantes de livros, dos arquivos da Comunidade Européia foram digitalizados desde fevereiro de 2008 ao custo de 2,5 milhões euros [R$ 7 milhões].  Fonte: Independent.

• A biblioteca da Comunidade Européia conta hoje com cerca de 140 mil publicações e a cada ano mais 1.500 arquivos originalmente digitais são adicionados.

CHINA

• Cerca de cinco milhões de chineses começaram a ler livros em aparelhos eletrônicos portáteis, segundo um relatório sobre o desenvolvimento do eBook na China, divulgado em outubro de 2009 por uma aliança de editoras e companhias de internet.

• 95% dos chineses que lêem publicações em algum tipo de dispositivo eletrônico baixam conteúdo pirateado da internet e 75% da população do país que lê livros eletrônicos têm menos de 31 anos.

• De um total de 79 milhões de chineses que lêem livros em dispositivos eletrônicos: 6,3% lêem livros em telefones móveis e apenas 0,3% nos aparelhos dedicados à leitura de livros.

• O Google recebeu autorização de mais de 50 editoras chinesas para digitalizar mais de 30 mil livros, que podem ser parcialmente acessados pela Internet.

• Na China são digitalizadas 100 mil páginas por dia.

BRASIL
• Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil [realizado pelo Instituto Pró-Livro] dos 95,6 milhões de leitores do País, apenas 1% recorre aos eBooks.

• Apenas 9% da população leitora mapeada, ou 8,6 milhões de pessoas, vão à Internet em busca de leitura.

• Cerca de 85% dos downloads de eBooks no país são de formatos compatíveis com a leitura apenas no computador de mesa.

• Apenas 15% representam os diferentes formatos, compatíveis a outros devices portáteis como os celulares por exemplo.

• A porcentagem de leitores mapeados pelo estudo, e que usam as mídias digitais, se divide da seguinte maneira:

Textos na internet — 9%
Livros digitais — 1%
Áudio livros — 1%

• No Brasil já passa de 1.000 o número de títulos comercializados e convertidos para Áudio Books.Fonte: Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil

• A porcentagem do tempo médio gasto com a leitura através das mídias digitais se divide da seguinte maneira:

Textos na internet — 2h10
Livros digitais — 1h30
Áudio livros — 2h20

• Segundo a Secretaria de Educação a Distância, ligada ao Ministério da Educação, em cinco anos de vida o portal Domínio Público contabilizou mais de 15 milhões de downloads de obras no site.

• Há mais de 5 mil links ilegais na internet, contendo reproduções de conteúdos de livros em língua portuguesa. Fonte: SNEL e ABDR.

• O site Máquina de Quadrinhos [em que usuários podem criar as próprias histórias com os personagens da Turma da Mônica] computa 57 mil histórias criadas por usuários, além de acessos a partir de 62 países diferentes.