As editoras contra o Kindle


O Kindle, o leitor de livros eletrônicos da Amazon, tem gerado respostas ambíguas. Se em uma semana ficamos sabendo que editoras brasileiras, por exemplo, correm para digitalizar seus títulos, em outra descobrimos que editoras americanas, grandes, seguram títulos novos, no Kindle, para que não “canibalizem” suas respectivas versões em papel [nas livrarias]. Como na indústria do cinema, onde um DVD [ou, será?, Blu-ray] só está “liberado” para o comércio depois de meses da estreia nas salas de exibição, a Simon & Schuster quer “segurar” seus lançamentos [em capa dura, nos Estados Unidos] durante quatro meses, antes de disponibilizar suas respectivas versões eletrônicas [a uma fração do preço, evidentemente]. A Amazon, embora venda, também, as versões em papel, responde que – meses depois – o leitor do Kindle perderá o interesse, ou adquirirá outro título, talvez de outra editora, que esteja disponível eletronicamente… Blogueiros igualmente acusam editoras como a Simon & Schuster – e outras, como o grupo francês Hachette – de criar uma “falsa escassez”, pois “segurar” um livro em versão eletrônica pode, futuramente, equivaler a tentar segurar versões “pirata” de Harry Potter, U2 ou Paulo Coelho, que sempre escapam… E por falar no mago brasileiro, a Veja anuncia que ele foi o “primeiro” autor nacional a suplantar as editoras – e negociar, diretamente, com a Amazon. Não é, obviamente, uma ideia original dele (nem da Veja), é algo que já estava previsto no script: afinal, como escreveu Paul Graham, em setembro, vamos caminhando para um mundo “post-medium” ou, em bom português, “pós-mídia” [física]. A Amazon, embora se faça de amiga dos jornais [com o Kindle DX], pode, num futuro, tornar-se, sim, a única editora. Como a mesma Apple pode. E como o Google, também, pode… Para complicar, ainda mais, o raciocínio, surgiu a notícia de que o Kindle ameaça ser “hackeado”… Se os editores, e os autores, brasileiros, em outras épocas, nem sonhavam com a “digitalização”, agora terão de pensar em um melhor argumento que o do “cheiro”, da “textura”, do “gosto”…

Digestivo nº 447 >>>Julio Daio BorgesSexta-feira, 1/1/2010

Pergaminhos e terabytes


A primeira Bíblia impressa da História foi produzida por Johannes Gutenberg, em 1455. É o marco inicial do uso de tipos móveis na impressão de documentos, processo que revolucionou o mercado gráfico, permitiu a confecção de livros em grande escala e deu origem à imprensa. A Bíblia de Gutenberg não faz parte do acervo da Biblioteca Nacional do Brasil, sediada na Cinelândia, mas outra da mesma época, feita por dois ex-sócios de Gutenberg, está lá, em dois volumes. É um dos muitos tesouros da Biblioteca Nacional do Brasil, que festeja seu bicentenário em 29 de outubro deste ano. A Biblioteca lançara sua versão virtual em 2006 e já vinha digitalizando documentos desde 2003. “A gente não digitaliza apenas para dar acesso à informação. Isso seria fácil de se fazer, pois não exigiria uma resolução altíssima. Digitalizamos como uma forma de preservação dos documentos em seus mínimos detalhes, pois nunca se pode descartar o risco de roubo ou danificação. Estamos procurando um patrocinador para instalar um data center aqui. Temos dez terabytes de arquivo digital”, conta Angela Monteiro, coordenadora de Informação Bibliográfica da biblioteca.

O Globo – 01/01/2010 – Por Eduardo Fradkin

Os Espiões


Basta acessar www.livroinedito.com.br e a capa de “Os Espiões” [ Alfabuara ], de Luiz Fernando Veríssimo, aparece. Ao toque do mouse, a placa sugere: “O livro está aberto. Clique para ler”. A iniciativa é da fundação Gaúcha dos Bancos Sociais, que criou o Banco dos Livros, para receber doações e repassá-las a entidades necessitadas. Foram 320 mil até o final de novembro, e a meta é chegar aos 500 mil.
Quanto ao livro de Veríssimo, a surpresa termina no final do segundo capítulo. A editora não liberou todo o conteúdo, para frustração da Fundação.

Revista Panorama Editorial – Ano V – Número 51 – Janeiro de 2010

Livro Eletrônico: mito ou realidade?


Vitor Tavares*

Tudo bem, o livro eletrônico é, sim, uma realidade factual. Mas, daí, o escritor Paulo Coelho emprestar sua imagem para dizer que o livro impresso desaparecerá – me desculpem os aficionados pelas grandes inovações tecnológicas –, é um tanto fora da realidade editorial brasileira.

A corrida mercadológica para o livro eletrônico está apenas começando, e é uma briga para poucos. O primeiro a chegar no Brasil disponibiliza até 1.500 volumes; mas, quais serão estes textos? Num primeiro momento, todos em inglês. Como estarão, então, se preparando as editoras brasileiras? Elas vão parar de imprimir seus livros? Assim como um passe de mágica, o impresso desaparecerá?

Não, não será assim. O custo inicial deste eBook é de cerca de R$ 1 mil. Não nos esqueçamos do número de leitores no Brasil, sabemos que inicialmente serão poucos – de acordo com a realidade nacional, é claro –, os que importarão o eBook.

Vivemos num país em que o índice de leitura é um dos mais baixos do mundo [3,7 livros lidos por habitante]; sem a compra de livros pelo governo, o número de livros lidos seria ainda mais ridículo: 1,8 por pessoa ao ano [dados do Retrato da Leitura no Brasil, IPL 2007]. Quais vantagens, então, nos traz esta nova plataforma de leitura? Agilidade, portabilidade, preços acessíveis, um novo apelo mercadológico, entre outros? Se estes forem os requisitos básicos, o livro real já nasceu perfeito e não existe ainda nada mais prático do que o livro impresso. Ele é portátil, democrático, inclusive no preço; acessível a todos, é um companheiro, em qualquer hora e lugar.

Então, muita, muita calma; o livro impresso não desaparecerá. A questão inicial é saber quais [e quando teremos] os primeiros livros disponíveis na língua portuguesa. Não acredito que as obras de domínio público serão disponibilizadas pelo eletrônico atual. A agressividade mercadológica deixa bem claro que o fato de baixar livros gratuitos não faz parte da atual estratégia.

Livros, como os de Dan Brown, possuem um apelo midiático fenomenal em todos os cantos do mundo. Para esse tipo de livro, um Best Seller, o livro eletrônico será uma grande ferramenta de venda. Porém, a bibliodiversidade não se faz só de livros com apelos mercadológicos. A bibliodiversidade de um país é medida por sua qualidade e diversidade de publicações, e o livro eletrônico não contemplará tudo.

Que interesse comercial teriam os criadores de plataformas eletrônicas para leitura, a maioria delas, sem o apelo comercial dos grandes Best Sellers? As edições da maioria dos livros no Brasil estão entre 1.500 e 2.500 exemplares, para uma população de 190 milhões e cerca de 70 milhões de leitores, o que significa tiragens muito baixas. Vejo que o problema não é o livro eletrônico, mas sim o baixo índice de leitura da população e a falta de acesso ao livro. Neste caso, o papel das livrarias é fundamental em nosso país.

O livreiro tem de estar, sim, preparado para o lançamento de um eBook produzido no Brasil, que aceite de imediato a nossa produção. Sabemos que ele irá absorver uma parte do mercado físico do livro, portanto, temos de estar atentos, atualizados e preparados para conviver tanto com os livros eletrônicos quanto com os impressos. As livrarias devem se preparar para trabalhar de forma híbrida, tanto com livros físicos como com os eletrônicos; um não substituirá o outro. Se aumentar o poder aquisitivo da população, e os governos, nos três níveis, promoverem políticas públicas que formem, de fato, novos leitores, haverá espaço para as duas formas de leitura, livros físicos e eletrônicos. Com o aumento da base de leitores se criará, cada vez mais, o hábito da leitura nos cidadãos. Outra coisa que deverá ser levada em conta é como e onde baixar esses arquivos. Para que a cadeia do livro não deixe de lado nenhuma de suas vertentes, cabe ao editor, principalmente, usar e respeitar o meio ‘Livraria’ para disponibilizar seus livros eletronicamente. No meu entender, então, deve e precisa ser em terminais eletrônicos, como já acontece com a recarga de telefones celulares. Livros devem ser baixados nos caixas ou terminais dentro das livrarias, assim, todos teriam estímulos para operar com as novas tecnologias.

Mas, novamente, vivemos no Brasil e precisamos, antes de tudo, aumentar o índice de leitura do brasileiro. Precisamos que as várias ações e políticas públicas, mais do que nunca, incentivem as crianças a ler. A formação de novos leitores inicia-se nos primeiros anos escolares, com o incentivo dos professores; e nas famílias, com os próprios os pais, que se tornam os primeiros contadores de histórias para seus filhos.

Neste momento, não podemos deixar de abrir um espaço para ressaltar que o caminho é, também, ter boas e atualizadas bibliotecas públicas. Modernas, atraentes, com terminais de computadores e acesso à internet. Bibliotecas com funcionários que gostem de ler, com contadores de histórias e, principalmente, abertas à população, sem restrição. Vamos aumentar o número de leitores quando cada biblioteca pública for um verdadeiro centro de cultura com várias atividades culturais, respeitando-se a nossa grande diversidade cultural – normal para um país com tais dimensões. O espaço de uma biblioteca não pode ser apenas um depósito de bons livros.

Então, enquanto buscamos incentivar cada vez mais o número de leitores no Brasil, baseados na nossa factual realidade, vemos nitidamente que o livro eletrônico aqui ainda é, sim, um mito. Está fora da realidade do poder de compra da maioria da população brasileira. Não será desta forma que democratizaremos a leitura no Brasil. Isso é óbvio.

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*Vitor Tavares, executivo na área de livrarias há 20 anos, é presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL] e diretor das Livrarias Loyola. E-mail: vitor@livrarialoyola.com.br

Cresce o comércio virtual de livros


A Livraria Cultura, uma das grandes livrarias do País, tem na web um poderoso instrumento, capaz de rivalizar com uma de suas nove lojas físicas. Uma das primeira a lançar um site de venda de livros, a Cultura estima em 18% o faturamento gerado online. “É mais uma loja que temos“, alegra-se o Diretor de Operações, Sérgio Herz.

Revista Panorama Editorial – Ano V – Número 51 – Janeiro de 2010

Veredicto em fevereiro


Foi adiada para o dia 18 de fevereiro a audiência de conciliação do caso Google versus sindicato de autores e editores, nos EUA. As duas partes entraram em acordo e é o seu teor que o juiz Denny Chin pretende examinar, para decidir. Muitas outras organizações como Amazon, Microsoft e Yahoo, declararam interesse direto no caso, alegando que o Google, ao digitalizar os acervos do mundo inteiro [10 milhões até agora], fere a lei antitruste.

Revista Panorama Editorial – Ano V – Número 51 – Janeiro de 2010