Kindle: o livro digital chega ao Brasil


Os americanos fizeram inveja ao mundo inteiro por alguns anos. Só eles tinham acesso ao Kindle, o livro digital da loja online Amazon, que virou sonho de consumo de 10 entre 10 apreciadores de uma boa leitura. E nem adiantava importar o produto: para que o Kindle funcionasse, seria necessária uma rede de dados especial que entregasse o conteúdo, em tempo real. Só que agora, a Amazon e a AT&T fecharam parcerias com empresas em outros países e, finalmente, o Kindle já pode ser utilizado por nós, brasileiros.

Nosso exemplar chegou esta semana. Logo de cara, o tamanho chamou atenção. Ele é bem menor e mais fino que o modelo vendido nos Estados Unidos. A tela tem uma definição impressionante e, por não emitir luz, também não cansa a visão. É como se estivéssemos lendo uma folha de papel, mesmo. A conexão 3G com a rede gratuita da Amazon foi encontrada instantaneamente. Não foi pedida nenhuma senha, nenhum login e nem precisamos inserir o chip de operadora alguma. O equipamento chegou prontinho para o uso e já veio associado à mesma conta e emails utilizados no momento da compra do produto.

O Kindle tem 2 giga de memória interna – é o suficiente para arquivar até 1500 livros, jornais ou revistas. Estes itens são comprados na Kindle Store. É uma verdadeira livraria virtual. Você a percorre por entre as sessões e os títulos. Ao encontrar um do seu interesse, é só baixar o primeiro capítulo, de graça. O valor só é cobrado caso tenha interesse na obra completa. Na banca de jornais, o carioca “O Globo” já aparece por lá em sua versão digital. É possível escolher o seu caderno de notícias preferido e navegar por entre os artigos apertando os botões Previous e Next Page. É possível comprar edições avulsas, ou assinar o jornal por um período definido. Caso a segunda opção seja escolhida, o produto será baixado automaticamente, todas as manhãs, e estará disponível para leitura assim que você acordar. O mais legal é que, pelo fato do Kindle estar conectado à rede durante todo o tempo, qualquer alteração na edição também será enviada para você.

Não enxerga letras pequenas? Bom, no Kindle isso não é problema. Você pode escolher entre 6 tamanhos diferentes. E para os deficientes auditivos, ainda existe a opção de “Text to Speech”, ou seja: o equipamento lê o texto, em voz alta, para você. Aqui mora o problema do Kindle neste começo de vida no Brasil: ele só lê em inglês e, fora a edição online do Globo, não existem outros títulos em português. De qualquer forma, o aparelho se mostra um bom professor da língua inglesa. Ao ler os textos, basta repousar o cursor em frente a alguma palavra para que o seu significado seja exibido aqui, no pé da página.

Os textos em português ainda são escassos, mas o Kindle permite que você suba arquivos particulares nos formatos DOC, TXT, PDF e fotos. Então, é possível aproveitar o equipamento para dar um gás ou revisar aquele documento do trabalho, ou ler aquela página gigante que você encontrou na internet. Por meio do teclado, você pode escrever notas ou grifar partes do texto que julgar mais importantes. Tudo isso fica salvo para pesquisas posteriores.

Tem uma outra aplicação que nos intrigou. No item “Experimental”, vimos que o pessoal da Amazon já estuda a possibilidade do Kindle tocar músicas em MP3 e, nos Estados Unidos, os donos do brinquedinho já podem até navegar na web em páginas mais simples. Por aqui, a função ainda está desativada. Um outro detalhe que incomoda aqueles que estão acostumados com computadores mais velozes é a resposta um pouco lenta do aplicativo. O sistema utilizado para a impressão das páginas parece menos esperto que o LCD convencional, e o processador parece ser bem básico – dá conta do recado, mas sem muito destaque.

Certamente, você ainda vai ouvir muito a respeito do Kindle. A Amazon anunciou, ainda, que os livros digitais também estarão disponíveis para PCs em um futuro próximo. Só esperamos que cada vez mais títulos em português sejam lançados. O Kindle – e outros leitores digitais – até poderiam ser uma boa forma de fomentar a leitura em nosso país. O obstáculo é o preço. Para entrar no Brasil, o Kindle paga 49% de imposto de importação. O aparelho, que custa cerca de 260 dólares nos Estados Unidos, chega aqui por nada menos que 546 dólares. Mais que o dobro! Desse total, 266 dólares são só imposto. Ou seja, para o bolso brasileiro, o Kindle custa algo em torno de 960 reais… E, por enquanto, será uma leitura restrita aos mais endinheirados, apesar do charme do brinquedinho.

Olhar Digital | 01 de Novembro de 2009 | 15:45h

Você vai querer comprar um e-reader


A questão é simples: é surpreendente ou não?” A dúvida surgiu entre a equipe do Link, que desacreditava ao ver o Kindle assim que o aparelho aportou na redação. Se o grau de surpresa depende de cada um, o furor causado pelo aparelho é incontestável.

O Kindle – na verdade o modelo é chamado de Kindle 2, porque já havia um anterior – foi lançado pela Amazon no início de 2009 e agora é vendido em 100 países, incluindo o Brasil. Ele tem jeito, na verdade, de ser um dos primeiros modelos de um novo tipo de equipamento que ainda virá a ser popular, o leitor eletrônico de livros [e-reader].

Ainda há muitas falhas. A primeira reação é tocar na tela, mas ele não aceita comandos de toque. É preciso usar um botão direcional, como o de um celular, pouco intuitivo. O tempo de resposta é lento para os padrões de hoje, o que irrita. Ele também não é colorido – e isso não é realmente um problema. Ainda que apenas em preto e branco, a reprodução de imagens é incrivelmente boa, pouco melhor até que uma foto monocromática de jornal e semelhante a um desenho a lápis.

A tela é seu grande trunfo. Mesmo sob o sol que fez em São Paulo na sexta, foi possível ler textos na tela como se fosse um livro comum. Mas, do mesmo jeito, é preciso que haja luz no ambiente porque o Kindle usa uma tecnologia que, diferente das telas LCD, não emite luz, o que cansa os olhos. Circuitos elétricos alternam o pigmento de pequenos pontos na tela entre preto e branco e formam os textos e as imagens. É por isso que dá até para tirar uma fotocópia do Kindle.

Outro problema é a falta de conexão Wi-Fi. Todos os livros são baixados pela rede de celular, que nem sempre é rápida o suficiente. Também dá para fazer buscas na Wikipedia. Nos EUA, é possível navegar na internet, mas no Brasil esse recurso é bloqueado.Nos testes do Link, em vários momentos o Kindle avisava que não era possível se conectar por falta de sinal.

A conexão é imprescindível para fazer compras via Kindle. O Link testou a compra. Demorou uns minutos, mas funcionou. O método é simples. Basta navegar na própria Amazon, escolher um livro e selecionar o botão “Buy this book”. Infelizmente, você só fica sabendo do preço ao entrar nos detalhes de cada livro. Em seguida, o cartão de crédito que deseja usar e, ao confirmar, o arquivo é baixado automaticamente. Não há outra forma de pagamento. Caso se arrependa, dá para cancelar a compra.

Cada Kindle fica registrado com uma conta da Amazon, mas foi possível trocar de usuário sem que os livros gravados fossem apagados. Isso permite a uma terceira pessoa se logar em um Kindle de outra, baixar um livro já comprado, e deixar o arquivo para o dono original.

No fim, o Kindle é um ótimo aparelho. O preço [R$ 900] ainda é salgado, mas vai agradar, e muito, aos leitores que gostam de ler em inglês, mesmo os amantes de livros em papel. A facilidade de comprar livros pode fazer esse tipo de leitor repensar sobre a necessidade do papel. O preço de cada arquivo digital [US$ 12] também é caro, já que equivale ao preço de pocket books em inglês – sendo que o digital não tem os custos materiais do papel.

O Estado de S. Paulo – 01/11/2009 – Por Filipe Serrano

Faça um eBook na escola


Esse projeto é a resposta prática da editora Plus ao desafio que é a educação. Nosso objetivo é apoiar o desenvolvimento social e cultural de jovens estudantes, incentivando-os a escrever livros eletrônicos, e-books.

No cotidiano de muitos jovens, computadores, celulares, blogs e jogos eletrônicos são coisas muito mais presentes do que livros. Quantos lêem livros? Quantos acham que livros são coisas velhas, empoeiradas, chatas? Queremos, simplesmente, mostrar que os e-books são muito atuais, nunca juntam poeira, podem ser escritos e lidos em computadores e celulares e trocados entre amigos como se trocam músicas… e com isso, incentivarmos a escrita e a leitura.

O projeto Faça um E-book na Escola pode ser aplicado em qualquer grupo de estudantes, do Ensino Fundamental ao ensino superior. Usamos o nome escola no título do projeto, porque desejamos que ele seja produzido em um ambiente educacional – mas nós sabemos que as escolas são apenas um, entre tantos possíveis. Consideramos o Ensino Fundamental como ponto de partida, porque desejamos um envolvimento concreto e direto dos estudantes com o código escrito. Saiba mais.

Eduardo Melo – editoraplus.org – Novembro 2009

Pelo twitter


Conforme a coluna Gente Boa, Nelson Motta divulgará pelo twitter seu novo livro, Força estranha, em que embaralha fatos reais com ficcionais. Exemplo: “Jornalista corneado e ateu vai a um terreiro de candomblé e recebe um santo sem querer. Na volta do transe não se lembra de nada, mas…”

O Globo – 01/11/2009 – Por Joaquim Ferreira dos Santos

Outros e-readers


Nenhum e-reader como o Kindle está a venda no Brasil por enquanto, há apenas projetos ainda não concluídos. Mas concorrentes já preparam novos equipamentos, com até mais recursos e conteúdo que o Kindle, para não perder o bonde do mercado de livros digitais criado pela Amazon.

Barnes and Noble: Nook
Aliado à tradicional livraria, o Nook deverá ser um dos principais concorrentes. Uma das suas telas é colorida, tem conexão Wi-Fi e 3G

Sony: Rearder Daily Edition
A Sony foi uma das primeiras a lançar um e-reader. A tela do último modelo, que ainda será lançado e acessará o Google Books, vira na horizontal

Samsung: SNE-50K
Com tela de 5 polegadas, tem quase a metade do peso do Kindle (184g) e tela sensível ao toque. Mas por enquanto é vendido apenas na Coréia

Spring Design: Alex
Assim como o Nook, o novo modelo roda sobre Android, tem tela secundária colorida e Wi-Fi, mas ainda busca parceiros para ter conteúdo

Irex: DR800SG
Com tela de 8’’ sensível ao toque, tem conteúdo da Barnes & Noble e permite assinar mais de 1,1 mil jornais e revistas de todo o mundo

eBook Reader eBookCult
De marca brasileira, o modelo optou por usar tela LCD, cansativa para a leitura mesmo com retroiluminação fraca, mas pode ser alternativa.

Estadão – 1/11/2009

Quinhentos anos depois, livro pode mudar


Enfim, o Kindle chegou ao Brasil. E como seu nome parece insinuar [algo como “por fogo”, em inglês], ele de fato acendeu as discussões em torno do futuro dos livros na era digital por aqui – e, a bem da verdade, em todo o mundo.

Ninguém discute que o e-book veio para ficar, no entanto, essa é uma frágil certeza cercada por um mar de dúvidas.
A primeira não é nem de longe a mais importante: quando a versão eletrônica vai suplantar o bom e velho livro de papel? Uma pesquisa realizada pela organização da 61ª Feira do Livro de Frankfurt, a maior e mais importante do setor no mundo, entre jornalistas, escritores, editores e livreiros, revelou que 50% deles acredita que será em 2018. Não é de se surpreender essa divisão.

O que se avizinha é a maior mudança pela qual o mercado editorial – afinal, leitores de livro eletrônico, como o Kindle, servem para ler jornais e revistas também – jamais enfrentou. Nos cerca de 100 anos da música como produto, a partir da invenção do fonógrafo, ela evoluiu e se espalhou por diversos formatos [cilindros de cera, discos de goma-laca, de vinil, fita cassete, CD e finalmente MP3] e mídias [rádio, walkman, internet, iPod]. O livro, por sua vez, em mais de 500 anos de história quase não mudou. A mais relevante dessas sutis mudanças foi o surgimento do livro de bolso no início do século passado. Quer dizer, mudou, mas continuou igual.

A história do livro sempre esteve ligada ao seu suporte – uma tecnologia difícil de ser superada. É relativamente barato, pode ser levado a qualquer lugar, não usa bateria e seu uso é extremamente simples, não requer prática, tampouco habilidade.

Já houve leitores de livros eletrônicos antes do Kindle, mas foi apenas com ele [e alguns outros bons modelos que surgiram nos últimos anos, ainda inéditos por aqui] que começou a fazer algum sentido pensar que, um dia, o livro de papel não será o principal suporte para a literatura. “Esse é um processo sem volta”, afirma Sérgio Machado, presidente da editora Record.

Entre as editoras ouvidas pelo Link é unânime a opinião de que o e-book veio para ficar. A forma e a velocidade como cada uma delas pretendem se adaptar, no entanto, é bem diferente. A Ediouro planeja, já para as próximas semanas, o lançamento do aguardado novo livro de Rubem Fonseca, pelo selo Agir, para Kindle e iPhone. Já a Companhia das Letras, Cosac Naify, Planeta e a própria Record, confirmam as negociações com a Amazon, dona do Kindle, mas nenhum lançamento no formato, pelo menos por enquanto.

Em uníssono, por sua vez, elas afirmam que sua função independe do suporte. “Somos editores de conteúdo”, costumam repetir, além de concordar com o fato de que os livros técnicos e de referência devem ser os primeiros a migrar para o suporte eletrônico.

Apesar de todo o burburinho em torno do assunto, essa transição está dando apenas os seus primeiros passos. Mesmo nos Estados Unidos, o processo de massificação dos leitores eletrônicos parece distante.

Suas vendas, no entanto, crescem: 3 milhões de aparelhos devem ser comercializados, neste ano, apenas nos EUA. E as previsões para os próximos anos são extremamente favoráveis também. Paralelamente, tem se observado nos últimos anos algumas experiências que buscam oferecer, algo além do livro de papel [envolvendo a internet e vídeos, por exemplo] para contar uma história. O curioso é que o Kindle, apesar de todo o verniz tecnológico que o cerca, busca ser o mais fiel possível ao bom e velho livro de papel. Quer dizer, ainda que o suporte seja trocado, no fundo, os livros continuam exatamente os mesmos. Afinal, por enquanto, um bom livro ainda é aquele em que a história se completa na sua cabeça.

Bruno Galo e Filipe Serrano – Estadão – 1/11/2009