
O LIVRO ALÉM DA MíDIA # 10 | POR EDNEI PROCÓPIO
Amazon foi um dos primeiros cases, talvez o único de sucesso no mundo a oferecer, comercializar e distribuir livros utilizando a Internet. No início da Internet, a Amazon era conhecida como a maior livraria online e seu modelo inspirou diversas outras livrarias em diversos países. No Brasil, por exemplo, inspirou a antiga BookNet a se tornar mais tarde a Submarino.
Mas o que é hoje, e o que será amanhã a companhia? Quando a Internet não só ajudou a moldar um novo modus operandi na indústria de consumo digital, mas também ajudou a estabelecer um novo mapa no mundo dos negócios?
Bem, a equação é bastante simples se quem dita os rumos das grandes empresas de mídia é a Internet, então quem irá ditar os rumos da Amazon será também a própria Internet.
A Amazon não pode virar uma rede social como o Facebook, não há tempo, por esta razão anunciou recentemente a aquisição de um projeto sediado em São Francisco, California, chamado Goodreads, uma rede social vertical de recomendação de livros com 16 milhões de usuários.
Se você unir a eficiência de compra de livros da Amazon com uma audiência de 16 milhões de usuários, você vai perceber que o que a Amazon adquiriu não foi simplesmente uma rede social mas uma carteira de potenciais clientes para o futuro projeto de compras online da Amazon [hoje chamado simplesmente Kindle].
É preciso ir além
A Amazon não conseguiria tornar-se, da noite para o dia, uma gigante da mídia como a Apple, então criou a família de tablets baseado na também marca Kindle [tal o sucesso da iniciativa], que nasceu um e-reader e que avançou para um gadget de consumo não só de livros, mas de filmes, músicas, revistas, jornais e mídia em geral, tal qual um iPad.
Este plano da Amazon de se tornar uma empresa de mídia, e não apenas a maior lojista e-commerce do planeta, começou em meados de 1998, quando comprara o site Internet Movie Database. Quinze anos depois, o canal de notícias de negócios e tecnologia “Business Insider” divulgou que receberá de Jeff Bezos, fundador e presidente da Amazon, um investimento, angariado entre parceiros de negócios, na verdade um grupo de mídias digitais, da ordem de US$ 5 milhões.
Ou seja, a iniciativa, o projeto e a marca Kindle transformou a Amazon em um grande imã de negócios. Na indústria de tecnologia da informação este histórico de atração, que o Bill Gates chama de espiral positivo, se repete quando a Microsoft compra o Skype, o Facebook adquire o Instagram, quando a Google comprou a eBook Technologies e por aí vai. O que estas empresas estão comprando são audiência de usuário e não tecnologia.
A tecnologia é apenas uma ótima desculpa
Atualmente, a Amazon tem intensificado a aquisição de startups, iniciativas e projetos menores que possam agregar valor a sua cadeia de negócios. Estão entre elas empresas fabricantes de telas de LCD, sites de conteúdo, redes sociais temáticas, tecnologias em hardware e software que possam incrementar o projeto Kindle. Além da aquisição de empresas maiores ou menores especializadas na produção de conteúdo digital como é o caso da “Business Insider” .
Além de tudo disso, a Amazon tem projetos voltados para a produção de livros impressos sob demanda, que atendem desde editoras e selos menores até os chamados autores independentes através de soluções como o Kindle Direct Publishing.
A Amazon sabe que para enfrentar o imã de audiência de gigantes como Google, Facebook e Apple, terá que investir em iniciativas que deem resposta rápida ao retorno de seus negócios. E um modo de fazer isto é, ao invés de criar iniciativas próprias que levam tempo e grana, ir para o mercado e sair comprando iniciativas externas, independes, menores e, portanto, mais baratas. Afirmar que esta é exatamente a filosofia da máfia é perigoso para mim, então eu vou afirmar que na verdade apenas coincide no modo como jogamos xadrez, War ou Go.
A Amazon utiliza o canal mundial da agência Reuters para realizar cada um de seus anúncios de lançamento, novidades e aquisições. As notícias vaporizadas pela agência se espalham pelo mundo como rastilho de pólvora e cria um cenário todo propício para que mais iniciativas independentes pensem estar às margens da companhia de Jeff.
Um amigo chama isso de “vaporware”
Por exemplo, antes da Amazon aportar aqui no Brasil, país cujo mercado editorial ainda não aprendeu a compreender estas engrenagens, a própria Amazon, ou quem dela se beneficia, criou rumores de que uma grande rede de livrarias brasileira seria adquirida pela companhia. Estes rumores, quando não verdadeiros, e aquele, pelo que parece, se mostrou um engodo, criam um clima de instabilidade no mercado que obriga os editores a repensarem rapidamente os seus negócios para enfrentar a intensa concorrência das empresas globais que agora descobriram um novo mapa para expandir o seu domínio.
A Amazon compreendeu muito bem a filosofia que rege as empresas de alta tecnologia da informação, principalmente àquelas ligadas ao centro norte americano de inovação, frente às concorrências por sua vez da indústria criativa da Índia e China. A filosofia de comprar iniciativas independentes para avançar seu alcance de domínio ajuda a Amazon a avançar em seu plano de se tornar em pouco tempo uma empresa de mídia.
Os livros eletrônicos, neste plano, é o mais bem sucedido projeto de mídia, o mais barato e o mais eficiente modo de valorizar ainda mais uma marca que usou o livro como cartão de visitas para entrar nas casas dos consumidores; e que agora usa a plataforma Kindle para colocar diretamente nas mãos dos consumidores modernos o seu cash dispenser, o e-reader virou um terminal de compras portátil. Faz parte da filosofia da companhia portanto dar livros eletrônicos baratos, às vezes de graça, e em troca obter dados bancários dos consumidores. Com isso, na próxima interação com o botão OneClickPay, ou algo que o valha, ela lhe facilita também o consumo de outros conteúdos de mídias mesmo que seja um televisor digital, um tablet, um console de games ou quem sabe até um barbeador novo.
Subsidiar o próprio crescimento asfixiando todo um mercado de livros faz mais sentido agora para mim, depois de mais de dez anos tentando explicar para o mercado editorial o iminente perigo que rondava os eBooks. Parece-me agora que até os editores de livros em papel tinham no fundo, sem saber porque, alguma a razão em ser contra esta revolução; mas é ao mesmo tempo para mim uma tortura, porque não era exatamente a razão que eu pensava que os editores não tinham.
Eles até tinham uma certa razão, mas a razão era só o que eles tinham.
O LIVRO ALÉM DA MíDIA # 10 | POR EDNEI PROCÓPIO